Entrevista, Pensar a Imagem, Volume 2, Ano 2018

Fotografia e preservação: Gabriella Moyle

11 de novembro de 2018

Fotografia de Chichico Alkmim (1886-1978) / Acervo Instituto Moreira Salles

A Err01: Revista de Fotografia conversou sobre fotografia e preservação com Gabriella Moyle, conservadora da coordenadoria de Fotografia do Instituto Moreira Salles (IMS). Confira:

Como surgiu o interesse pela fotografia?

Meu interesse por fotografia surgiu bem tarde, quando eu estava quase terminando a gradução. Procurava alternativas à ingressar diretamente na pós-graduação na área de História. Uma colega me apresentou o curso de Conservação e restauração de bens culturais móveis e, a partir daí, comecei a me interessar e a me encantar por fotografia, sobretudo por sua preservação.

O que é fotografia para você?

Fotografia para mim é a estreita relação entre uma representação e a ideia que temos de tempo. É um objeto simbólico que pode traduzir, conter e/ou emanar emoções, sentimentos, valores, conceitos sociais, filosóficos e estéticos. A fotografia exprime identidade, beleza, poder, etc., e media, portanto, nossa relação com o mundo.

Gosto de pensar numa fotografia como um objeto em camadas, onde cada parte que a constitui pode reveler coisas e fornecer pistas sobre diversos aspectos e assuntos. Fotografias são, em sua essência, fontes. Fontes que fornecem testemunhos acerca de uma época, seus costumes e sua gente. Dessa forma, uma fotografia é o objeto mais sedutor que o ser humano talvez já tenha criado, porque contém em si elementos tão diversos e tão particulares ao mesmo tempo, que jamais se esgotarão as investigações que podemos fazer e as respostas que poderemos encontrar a respeito delas.

Aspectos técnicos, históricos, culturais, estéticos e formais estão ali contidos, sobrepostos e podem e devem ser redescobertos ou reinterpretados à medida que o tempo passa e tudo muda ao nosso redor.

Há uma singularidade na fotografia brasileira?

Para mim toda fotografia é um objeto singular. Como tentei explicar acima, o que mais me interessa no universo da fotografia é a sua preservação. E é muito importante falar sobre isso para que todos tenhamos consciência de que preservando fotografias e outras fontes como edifícios, vestimentas, pinturas, utensílios, costumes, tradições, etc., estaremos preservando a essência de nós mesmos e de nossa época, para que muitas outras pessoas no futuro saibam quem fomos.

Segundo o professor Boris Kossoy, o interesse pela fotografia enquanto objeto de investigações específicas no Brasil é muito recente. Somente a partir da década de 1980 é que começam a surgir no meio acadêmico publicações que priveligiam a iconografia.[1]

Se levarmos em conta a quantidade de imagens fotográficas produzidas desde 1839, e mesmo antes disso, ainda assim será difícil calcular a dimensão e o impacto que a produção dessas imagens técnicas tem sobre nossas vidas, já que, desde seu início, o objetivo era democratizar todas as experiências e traduzi-las em imagens. Ou seja, desde o seu início,[2] a fotografia implicava a captura do maior número possível de temas, ação potencializada com a ascenção de dispositivos móveis individuais bem mais baratos e fáceis de operar que as antigas câmeras do século XIX.

Três fotógrafos que constituem referências de inspiração do seu modo de ver a fotografia.

Chichico Alkmim, Paul Strand e Nobuyoshi Araki.

Chichico Alkmim

(1886-1978)

Chichico nasceu na fazenda do Sítio, município de Bocaiúva, Minas Gerais, e, após o falecimento de sua mãe, foi criado por duas tias em outra fazenda nos arredores de Diamantina. Ajudou nos negócios da fazenda e em trabalhos de mineração de diamantes empreendidos por sua família, e realizou viagens onde praticava o comércio de gado e a venda de joias. Acredita-se que numa dessas viagens, entre 1900 e 1902, tenha conhecido e se apaixonado pela fotografia, tornando-se, a partir de 1907, fotógrafo de estúdio à exemplo daqueles que praticavam a fotografia desse estilo no século XIX e início do XX. Abriu seu primeiro estabelecimento – mais conhecido à época como ateliê – em 1912 e, em 1919, instalou-se definitivamente num belo sobrado que ainda resiste ao tempo, no beco do João Pinto, 86, onde atuou até parar de fotografar em meados da década de 1950. Sua fotografia simples e ao mesmo tempo elaborada, encanta a todos e serve como documento sobre sua época, cultura e sociedade. Através de suas imagens podemos acessar os códigos que traduziam a sua personalidade, mas que também traziam consigo maneiras e modus operandidos manuais de fotografia e de revistas diversas que circulavam entre o Brasil e o exterior, delineando o ofício da fotografia, e espelhando modelos e novidades aos quatro cantos do mundo. Chichico foi um dos grandes fundadores desse ofício em Diamantina e teve como discípulo mais ilustre outro grande fotógrafo, Assis Horta (1918-2018), que ficou conhecido principalmente por ter feito retratos de operários na região, a exemplo das chapas compostas por várias imagens feitas antes por Chichico, quando os registros civis passaram a exigir imagens oficiais. Seu acervo é uma descoberta recente tendo sido ainda muito pouco explorado. Foi apresentado recentemente pelo Instituto Moreira Salles (IMS) em 2017 no Rio de Janeiro, em 2018 em São Paulo, e será apresentado no centro cultural do IMS em Poços de Caldas a partir de outubro desse ano. Segundo Eucanaã Ferraz, poeta, consultor, e curador da exposição com quem tive o privilégio de trabalhar entre a concepção, a produção e a apresentação da exposição do IMS, os personagens retratados por Chichico, seus homens, mulheres e crianças, todos eles nossos ancestrais, arrastam um sem-número de sugestões e vestígios materiais do passado. Sobretudo o tempo, inscrito nas roupas, nos penteados, nos modos de sentar, de estar em pé, na trama afetiva ou hierárquica entre os personagens.[1]Chichico é a magia do retrato condensada e envolta em calma, simplicidade, apuro técnico, elegância e contradições, à exemplo de tantos pessoas que povoam sua obra tornando-se únicas através de suas fotografias. É a essência de um trabalho genuíno ainda que possamos reconhecer nele referências externas.

[1]IMS. Chichico Alkmim: fotógrafo. São Paulo: IMS, 2017. p. 15.

Paul Strand

(1890-1976)

Apesar de terem sido contemporâneos, o mineiro Chichico Alkmim e o nova-iorquino Paul Strand não percorreram exatamente o mesmo caminho dentro da fotografia. Ainda que o primeiro tenha marcado época e definitivamente conquistado lugar de destaque na história da fotografia, Paul Strand esteve na vanguarda de um dos movimentos que alçou a fotografia a outro patamar, quebrando paradigmas e abrindo caminho para um novo estilo, a straight photography, ou fotografia direta. Nenhum outro fotógrafo até então havia radicalizado a relação entre câmera e realidade, fazendo com que as imagens resultantes dessa relação exprimissem de fato e literalmente instantâneos reais. É claro que em alguns momentos podemos identificar em sua obra vínculos com o pictorialismo, mas, ele foi um dos responsáveis por enxergar a fotografia de outro modo, sobre um ponto de vista diferente do que era celebrado e convencionado até então, tornando-se um pioneiro e um dos fundadores do que considerados hoje fotografia moderna.

 

Paul Strand, Young Boy, Gondeville, Charente, France, 1951.

 

Nobuyoshi Araki

(1940-   )

Nobuyoshi Araki é um fotógrafo japonês que começou sua carreira fazendo incursões na fotografia de publicidade até se consagrar como fotógrafo do cotidiano. Com uma verdadeira infinidade de livros publicados, suas imagens costumam provocar controvérsia e fascínio pela forma como são feitas e apresentadas, e principalmente por seu conteúdo que retrata intimidades da maneira crua e explícita. Muitas vezes aborda temas subversivos da cultura japonesa, transitando entre o público e o privado, invertendo espaços e compartilhando de forma direta, frontal, costumes de uma das culturas mais herméticas e tradicionalistas do mundo. A partir dos anos 1970 começa a desenvolver a relação que viria permear toda a sua obra desde então: vida; morte; amor; e erotismo, ou, para outros, sexo; vida; e morte.

Se pudesse escolher uma fotografia ou uma série mais importante para você, qual seria?

Edward Weston, Nu, 1936.

Essa fotografia feita por Edward Weston de Charris Wilson é ao mesmo tempo bela, misteriosa, simples e instigante. Tive a oportunidade de ver uma cópia em gelatina e prata do negativo original, e fiquei ainda mais fascinada pela imagem. Além da qualidade estética e formal e da quantidade de detalhes presentes na fotografia – de perto você consegue enxergar os pelos e as nuances da pele do corpo de Charris, o equilíbrio existente entre luzes e sombras é desconcertante.

 

Edward Weston. Nude, 1936. Silver Gelatin Print, printed by Cole Weston

 

Edward Weston sintetiza nessa imagem toda simplicidade, beleza, sensualidade e esplendor que caracterizam as obras de arte mais sublimes já concebidas até hoje. As informações subliminares contidas na cena transcedem os próprios elementos formais. Através da imagem de uma mulher abraçando seu corpo, sentada sobre um cobertor, ele nos faz enxergar além, alarga nosso olhar e nossos sentidos, fazendo com que vejamos muito mais do que está ali revelado.

Indique três bons livros sobre fotografia.

BARROS, Manoel de. Ensaios fotógraficos. Rio de Janeiro: Record, 2003.

REILLY, James M. Care and identification of 19th-century photographic prints. [Rochester], Kodak, 1986.

SONTAG, Susan. Sobre fotografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

 

Gabriella Moyle é conservadora-restauradora e trabalha na coordenadoria de Fotografia do Instituto Moreira Salles (IMS).

 

 

Referências

ARAKI, Nobuyoshi. Polaeroid. Köln: Oktagon, 1997.

__________. Self, Life, Death. Londres: Phaidon, 2011.

COTTON, Charlotte. A fotografia como arte contemporânea. São Paulo: Editora Martisn Fontes, 2010.

FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta: ensaios para uma future filosofia da fotografia. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.

IMS. Chichico Alkmim: fotógrafo. São Paulo: IMS, 2017.

IMS. Paul Strand: olhar direto. São Paulo: IMS, 2009.

KOSSOY, Boris. Realidades e ficções na trama fotográfica. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000.

MAMMÌ, Lorenzo; SCHWARCZ, Lilia Moritz. 8 x fotografia: ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2008

MANGEL, Alberto. Lendo imagens: uma história de amor e ódio. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

MENDES, Ricardo. Antologia Brasil, 1890-1930: pensamento crítico em fotografia. São Paulo: [FUNARTE], 2013.

MERRIL-OLDHAM, Jan. Programa de planejamento e preservação: um manual para autoinstrução de bibliotecas. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1997.

VASQUEZ, Pedro Karp. O uso criativo de acervos fotográficos. Rio de Janeiro: FUNARTE, 2016.

 

 

Recebido em 02/06/2018
Publicado em 11/11/2018

Como citar este artigo (ABNT):

  • MOYLE, Gabriella. Fotografia e preservação: Gabriella Moyle. Err01: Revista de Fotografia, Pouso Alegre,  v. 2, jul-dez, 2018. Disponível em: <http://www.err01.com.br/?p=705&preview=true> ISSN: 2595-1378.

 

 

 

[1] KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: IMS, 2002.

[2] SONTAG, Susan. Sobre fotografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

 

 

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