Entrevista, Volume 2, Ano 2018

Carlos Gandara fala sobre a XXX Bienal Brasileira de Arte Fotográfica em Preto e Branco

18 de julho de 2018

A Err01: Revista de Fotografia entrevistou Carlos Gandara, Presidente do Clube do Fotógrafo de Caxias do Sul, que neste ano de 2018 está promovendo a XXX Bienal Brasileira de Arte Fotográfica em Preto e Branco.

A Bienal é o maior evento fotográfico do fotoclubismo no Brasil. Ela premia as melhores fotografias realizadas por membros dos fotoclubes de todo o Brasil. Trata-se de um evento artístico e cultural que reúne profissionais, amadores e um público incalculável de pessoas que, de alguma forma, são tocadas pelas imagens e pela forma singular de construção de sentido operada pelas imagens.

Com o apoio da Confoto, as bienais são eventos realizados de modo intercalado, com uma bienal de arte fotográfica em cor e outra em preto e branco, promovidas de modo itinerante em diferentes fotoclubes do Brasil.

Confira a entrevista:

O que é uma Bienal de arte fotográfica?

As Bienais são hoje para os fotoclubes a jóia da coroa, a cereja do bolo. Não há reunião do Clube em que elas não sejam citadas. São nosso desafio e ao mesmo tempo nossa vitrine. Quantas vezes durante o ano vêm alguém com uma foto e pergunta no clube: – Tu achas que esta foto daria pra mandar pra uma bienal?

 

“Meu mundo” – Fotografia de Estevão Bordin ©, do CFCX, 1º Lugar na XXVII Bienal de Arte Fotográfica em Preto e Branco de 2012.

 

Essa pergunta resume toda a importância que damos ao evento. E do outro lado está o público, que vai à exposição, que admira as fotos. Que privilégio ter na sua cidade uma coletânea do que de melhor os fotoclubes de todo Brasil produzem.

Este ano estamos organizando a XXX Bienal Brasileira de Arte Fotográfica em Preto e Branco em Caxias do Sul. Estaremos expondo, em agosto, as 150 melhores imagens.

Um evento que reúne arte, cultura e atividades sociais exige bastante trabalho. Como o CFCX organizou a equipe para realizar as atividades?

Muito trabalho….

Mas um dos pontos fortes do Clube de Caxias do Sul é a participação.

Rapidamente organizamos um grupo de quase 20 sócios dispostos a trabalhar no processo e agora, na iminência da Bienal, chamamos mais 30 para participar como voluntários durante o julgamento e a exposição. Somos muito animados, como se diz por aqui, não tem tempo ruim. É muito fácil trabalhar com tanta gente colaborando.

 

“O monstro” – Fotografia de Keny Su ©, do Grupo Luminous de Fotografia, 1º Lugar na XXVI Bienal Brasileira de Arte Fotográfica de 2010.

Eu me orgulho muito em ser presidente em um Clube em que o presidente tem menos tarefas que muitos dos sócios. Há muito tempo o Clube anda sozinho e tem uma renovação de sócios grande. Nos reunimos semanalmente, e somos muito cobrados por não falhar uma reunião. Deste jeito fica fácil organizar qualquer coisa, desde uma saída fotográfica a uma Bienal.

Os jurados escolhidos para trabalhar na seleção das fotos são muito respeitados e todos com uma carreira bastante sólida na fotografia. Como foi feita a escolha dos jurados?

Com a ajuda da Confoto conseguimos juntar um time impressionante de jurados. Estamos realmente ansiosos pelo julgamento das fotos. Até posso dizer que, desde o ano passado, na Bienal de São José do Rio Preto, estamos vendo que o julgamento das fotografias é um grande momento das Bienais.

 

“Pampa II” – Fotografia de Tadeu Vilani ©, do CFCX, 1º Lugar na XXIX Bienal Brasileira de Arte Fotográfica em Preto e Branco, de 2016.

 

Propomos para este ano que esse momento seja melhor aproveitado. Começamos com um grupo de jurados incontestável. Nomes que vão além da fotografia e já fazem parte da história moderna do Brasil, como Evandro Teixeira.

Estamos aproveitando a presença deles aqui para organizar apresentações, debates e palestras com os Jurados. Incentivamos também os membros dos fotoclubes e os alunos dos cursos de fotografia da cidade a assistirem o julgamento. Acreditamos que esse é um momento único de aprendizado.

 

Nos bastidores de uma Bienal, um dos momentos mais interessantes é o da escolha das fotografias vencedoras, premiadas com menções honrosas e aceitações. Às vezes os jurados divergem. Como funciona esse processo de escolha das fotografias?

O processo de escolha das fotografias é sempre um momento delicado. Existem muitas teorias e práticas sobre julgamentos, mas é importante lembrar que este evento é de responsabilidade da Confoto e totalmente regulado por ela. O Clube de Caxias é um agente facilitador, mas o processo todo é da Confoto.

O fato das fotografias serem apresentadas impressas, na minha opinião, é um grande ganho. Existe muita crítica a respeito disto. Por que não usamos arquivos digitais? Seria mais fácil e econômico. Mas veja bem: a impressão, a revisão da cópia, a escolha do papel é mais uma intervenção do fotógrafo na sua obra e nada se compara em ver a foto alí, impressa.

 

“Fazendo faxina” – Fotografia de Wanderlei Quito ©, do FotoClube de Araraquara, 1º Lugar na XXV Bienal de Arte Fotográfica em Preto e Branco de 2008

 

Inicialmente, todas as fotografias são apresentadas aos jurados e estes têm que decidir se ela é uma boa foto sim ou não. De acordo com o número positivo que cada foto recebe ela é separada ou rejeitada.

Depois disso, num segundo momento, até num segundo dia, estas fotos aprovadas são analisadas em detalhe até que se escolha as três melhores, as menções honrosas e as fotografias que vão fazer parte da mostra da Bienal. É um processo lindo e, por vezes, angustiante para quem assiste. Muitas vezes uma foto que te parece boa é rejeitada pelos jurados. Isso mexe com a gente e te faz questionar toda tua história fotográfica.

 

Um dos grandes nomes do fotoclubismo no Brasil é o Dr. Walter Brugger, do CFCX. Ele fez fotografias inovadoras muito antes do movimento desconstrucionista da fotografia contemporânea em geral. Essa pegada de inovação e ousadia aparece em várias fotografias de associados do CFCX. Que tipo de atividades o CFCX realiza para estimular a criatividade dos seus associados?

Walter Brugger é o tipo de colega de clube que deveria passar 1 mês por ano em cada fotoclube do Brasil. Ele é genial, tem uma alma jovem apesar dos seus 93 anos. Tem personalidade forte e uma capacidade de criar impressionante. E tem uma legião de seguidores só na família Brugger: são pelo menos mais 4 sócios do clube que vieram desta família de origem germânica. É claro que um fotógrafo como o Walter, multipremiado e supercriativo inspira toda a gurizada nova do clube. Cultivamos um respeito profundo pela figura carismática de Brugger. Cada reunião que ele participa é diversão certa, seja pela maneira como ele se expressa ou pelas suas contribuições. Até hoje Brugger se renova e buscamos manter sua fotografia sempre a vista.

 

Auto-retrato de Walter Brugger ©, do CFCX, Medalha de Prata no 47º Salão Januense Internacional de Arte Fotográfica.

 

Há um par de anos o clube organizou uma exposição no Museu municipal das fotografias de Brugger. Fizemos até um boneco em tamanho natural dele que recebia os visitantes, porque Brugger sempre é uma presença marcante. Por isso eu insisto na necessidade de cada fotoclube ter uma figura assim, que mexe com os conceitos, que repensa a sua fotografia e que está sempre um passo a frente.

Na sua opinião, qual é o papel do fotoclubismo no Brasil hoje?

Tenho acompanhado com curiosidade muitos setores da fotografia brasileira e cada vez mais me convenço que o fotoclubismo é peça importante nesta história. Com frequência, em Caxias, convidamos fotógrafos importantes do estado para falar sobre suas atividades, seja fotojornalismo, social, fine art, entre outras, e fico impressionado com o respeito e com a admiração que nomes importantes tem com o fotoclubismo.

 

“Negro Branco” – Fotografia de Paquito Masia Herrera ©, do CFCX, 1º Lugar na XXVIII Bienal de Arte Fotográfica em Preto e Branco, de 2014.

 

Ao mesmo tempo que parecemos ser a forma mais pura, despretensiosa e livre da fotografia, essa liberdade nos exige criatividade, ineditismo e nos permite a transgressão de regras. Sinto por vezes que esse é o anseio dos profissionais que veem os fotoclubes como um oásis para criação. Não vejo muita liberdade para criação no trabalho dos fotógrafos. Muitos rótulos e amarras os prendem. Liberdade temos de sobra nos fotoclubes.

 

Quais são as expectativas para a Bienal PB?

Tivemos 27 fotoclubes participando e mais de 1700 fotografias catalogadas para julgamento. A Bienal é um evento ansiosamente esperado pelos fotoclubes. Para ter ideia, aqui em Caxias começamos a preparar uma Bienal com 1 ano de antecedência. Discutimos Bienais anteriores, olhamos fotos escolhidas, estudamos o currículo dos jurados, aprendemos técnicas de tratamento de imagens, escolhemos papéis especiais para ampliação. Tudo isso está nas veias dos fotoclubes. Viver uma Bienal intensamente nos faz muito felizes.

 

“Hora do banho” – Fotografia de Gemerson Dias ©, da Associação Brasileira de Arte Fotográfica, 1º Lugar na XXIV Bienal Brasileira de Arte Fotográfica em Preto e Branco, de 2006.

 

Quais foram os maiores desafios na organização dessa Bienal? E as maiores alegrias?

Sem dúvida um dos maiores desafios em organizar um evento como a Bienal é o custeio. Desde o inicio essa foi uma preocupação grande. Como tudo que envolve arte e cultura no Brasil não é simples convencer órgãos públicos e empresas privadas a participar e custear. Obtivemos pouquíssimo apoio dos órgãos públicos, mas tivemos uma excelente aceitação de várias empresas privadas de nossa região. Sabíamos que o momento era difícil para estas empresas, mas acredito que o nome do Clube do Fotógrafo de Caxias já está associado com tanta coisa boa e isso pesou na decisão dos parceiros em apoiar. Queremos fazer bonito e mostrar pra toda comunidade as marcas que nos apoiam.

 

Carlos Gandara é médico e presidente do Clube do Fotógrafo de Caxias do Sul

 

Mais informações sobre a XXX Bienal Preto e Branco de 2018 em: bienalcaxias.com.br

 

Enviado em 15/07/2018

Aprovado em 18/07/2018

Como citar este artigo (ABNT):

GANDARA, Carlos. Carlos Gandara fala sobre a XXX Bienal Brasileira de Arte Fotográfica em Preto e Branco. Err01: Revista de Fotografia. Vol. 2. julho, 2018.

 

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