Pensar a Imagem, Volume 1, Ano 2018

Nelson Chinalia: fotografia e verdade

14 de março de 2018

Nelson Chinalia ©, Violência Nua, 1995.

“Toda imagem é uma tentativa de passar para o outro uma mensagem. E o poder dessa mensagem está ligado ao seu conhecimento. O quanto você entende de mundo, porque você está mostrando uma parte do mundo para alguém e isso você mostra não apenas com o seu olhar, mas com todo seu universo cognitivo, com todo seu conhecimento.” Nelson Chinalia.

O início

Aos 14 anos eu precisava ajudar minha família, que não era pequena e todos trabalhavam. Apareceu um emprego em uma loja de fotografia. Logo no primeiro dia conheci a câmera escura. Estavam revelando filmes e fotos. Eu vi a imagem aparecendo submersa na banheira e me encantei por aquilo, encantei-me pelo processo fotográfico. Uma coisa mágica ver a foto preto e branco sendo revelada.

Era algo mágico. Gostei de ver aquilo e fiquei muito interessado em entender o processo. Trabalhava junto com outros fotógrafos. Durante a semana eu ajudava na loja e no laboratório, e nos finais de semana eu ajudava a iluminar as fotos de casamentos, levar as bolsas, recarregar as câmeras, enfim, o trabalho do assistente no início de carreira.

O mais interessante é que eles trabalhavam com câmeras Rolleiflex – olha que maravilha ter a oportunidade de começar com Rolleiflex. Isso foi em 1970 e, para mim, foi um encanto. Entender aquela câmera complicada, que todos olhavam e admiravam. Para mim foi maravilhoso começar dessa forma: como assistente durante os finais de semana nos eventos que os fotógrafos cobriam e depois, durante a semana, como vendedor de filmes e químicos para os fotógrafos, porque naquela época não havia o revelador pronto. Cada um tinha sua formulação química. Os fotógrafos de Campinas faziam os seus próprios reveladores.

 

Nelson Chinalia ©

Foi um grande aprendizado, pois aqueles químicos eram mágicos também. Cada um tinha um cheiro, cada um tinha uma textura e davam resultados diferentes para cada trabalho fotográfico.

A escola, naquela época, era apenas a escola normal, como em todas as cidades. Não havia uma escola de fotografia. Quem quisesse aprender tinha que fazer o que eu fiz. E sem querer eu entrei em uma loja chamada Fotoelétrica, que foi de Luiz Carvalho de Moura. Ele formou pelo menos oito fotógrafos do mesmo jeito que eu tive o meu aprendizado. Portanto, Luiz Carvalho de Moura fez o papel da escola quando essa escola não existia e foi para mim bastante gratificante. Queria realmente entender mais aquilo, aquele processo, que foi o encantamento.

Na loja de fotografia, o Sr. Luiz, quando não tinha clientes, estava lendo os jornais. Ele assinava os grandes jornais de São Paulo e também o Correio Popular aqui de Campinas. Eu me interessava pelas fotos publicadas no jornal, principalmente nos cadernos de esportes. Aquelas fotos eram lindas para quem gostava de futebol. Eu estava aprendendo a fotografar e ficava imaginando como é que os fotógrafos faziam aquelas fotos tão bonitas.

Aquilo foi me despertando de tal forma para a fotografia que eu quis partir para essa temática de esportes e, coincidentemente, a Fotoelétrica, aqui em Campinas, era muito próxima do Correio Popular. Ficava a cem metros da loja. E de vez em quando, o Luiz Carvalho de Moura ou os fotógrafos dele eram chamados para cobrir a ausência de fotógrafos do Jornal que, às vezes, estavam em outros trabalhos e, na falta deles, chamavam então alguém de fora do Jornal para fotografar.

Numa manhã, estava sozinho na loja e uma pessoa importante chegou em Campinas e foi visitar justamente o Jornal. Essa visita era do Governador do Estado, chamado Laudo Natel. O pessoal do Jornal ficou desesperado, porque não tinha fotógrafo e me ligaram dizendo: “venha você mesmo porque precisamos das fotos!”

Imagine, eu, com 15 anos de idade, tendo que fotografar o governador do Estado. Lembrei de tudo, de todos os aprendizados, botei o filme na Rolleiflex com o flash Frata e fui até a redação do jornal. Fotografei. Quer dizer, não é bem assim, “fotografei”.

Em uma primeira missão dessas você treme, porque está diante do governador de São Paulo, com todo mundo de paletó e gravata e eu lá bem desajeitado, com a insegurança de um adolescente de 15 anos. Foi assim meu primeiro desafio.

Essa foi minha primeira pauta. Foi na hora do almoço. E à tardinha levei as fotos para o diretor de redação do jornal, que gostou do material. Ele disse “nossa, meu rapaz, um dia você vai trabalhar com a gente”.

Em março de 1973, um dos fotógrafos do jornal saiu para montar seu próprio estúdio. Um dos primeiros nomes lembrados pelo diretor de redação do jornal foi o meu. Tudo o que eu queria que acontecesse aconteceu. O Jornal me chamou para que eu fizesse um teste e a parte mais difícil do teste foi colocar o filme em uma Nikon em cinco segundos (risos). Não é fácil não, meu caro (risos). Eu tinha 16 anos de idade e, já com experiência de vários casamentos e eventos sociais, fui parar no jornalismo. E me disseram: “cara, aqui você não vai escolher o que vai fotografar. Aqui você fotografará tudo o que acontecer. Tudo o que tiver de pauta, de acontecimentos, você vai acompanhar. Mas já que você gosta de esportes, à noite terá basquete nos clubes da cidade, futebol da Ponte Preta e Guarani e nos sábados e domingos também acontecerão outras modalidades de esportes. Só que aqui, o horário para você entrar será às 13hs e vai até a hora que fechar o jornal”. Por volta da meia noite.

Foi uma alegria enorme quando eu comecei a ver o meu material publicado. O Jornal tinha uma biblioteca e em uma bela tarde eu fui lá ver o que tinha de fotografia. Deparei-me com um livro de fotografia em espanhol. Meus primeiros aprendizados foram com o fotógrafo de casamento e depois com os fotógrafos experientes no jornalismo – éramos três. Eles explicavam as técnicas e davam dicas e o livro me ajudava a entender tecnicamente as questões de iluminação e composição. Só que ele era em espanhol. Portanto, tive que aprender fotografia em espanhol. O livro até hoje está comigo, porque a biblioteca fechou enquanto eu estava no Jornal. Olha que coisa! Como não tinha para quem devolver o livro ele se “incorporou ao meu patrimônio” (risos).

O autor do livro é John Hedgecoe. Ele deve ter umas 30 edições, que foram sendo refeitas a partir desse primeiro. Manual de técnicas fotográficas, o primeiro livro dele. E hoje há uma edição em português da editora SENAC, que possui o mesmo título, desde que eu peguei em 1973. É um livro muito bom, com vários projetos fotográficos. Entre uma pauta e outra, nas folgas, eu tinha filme, câmera e as ideias do John Hedgecoe para fazer os testes e experiências.

Portanto, a minha escola foi antes de eu entrar na faculdade. Foi na raça. Foi vendo os outros fotógrafos e aprendendo com eles. E tirando minhas dúvidas com o livro “en español”, Essa foi minha entrada nesta área da fotografia jornalística.

A fotografia

A fotografia, para mim, é informação sem as palavras. Sou um sujeito que queria e consegui entrar no Jornal. Minha escola é a fotografia realista, sem manipulação. A fotografia que todo mundo tem que ver e acreditar que é resultado de alguém que registrou o acontecimento sem nenhuma influência. Portanto, minha linha fotográfica é a do realismo, do fotojornalismo.

Nos anos 70 tínhamos as grandes revistas, com os grandes mestres da fotografia. Todos aqueles consagrados fotógrafos desde os anos 50 estavam produzindo imagens maravilhosas e vendendo para as revistas que faziam muito sucesso, em uma época que a televisão era precária, as revistas eram maravilhosas. Os anos 60, particularmente, foram célebres, com grandes fotojornalistas que formaram gerações, minha formação é a do fotojornalismo bressoniano, do Robert Capa, David Ching (David Seymour), desses grandes fotógrafos que criaram a agência Magnum, que faz fotojornalismo até hoje. Com certeza, uma das maiores agências de fotografia do mundo.

Portanto, fotografia para mim é um texto sem palavras. É o momento que o fotógrafo elege e que essa imagem vai corroborar a informação textual. Cumprir uma pauta ou uma missão fotográfica dentro do jornalismo é fazer a imagem mais precisa possível, que possa ampliar a visão daquele leitor saber e entender mais sobre os fatos. É o lado visível da informação jornalística, como a testemunha ocular da história.

 

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Fotografia é, oficialmente a escrita da luz e, portanto, é aquilo que estava em frente da câmera, transformando em imagem o que será a história visual junto com as palavras. Este foi o meu fazer durante mais de 20 anos, onde eu fiquei trabalhando para o Correio Popular e para várias revistas, publicações e em empresas durante todo esse tempo.

Minha formação fotográfica foi dentro do fotojornalismo, sempre mirando aquilo que os grandes mestres da fotografia faziam ao redor do mundo e também os vários brasileiros com quem eu tive o prazer de dividir espaço nos grandes eventos, como nas corridas de Fórmula 1, nos grandes jogos de futebol, visitas de presidentes.

Tive a chance de fotografar, tanto no Correio Popular quanto em diversos jornais, muita coisa que aconteceu de importante e que hoje são fatos históricos. Tive a alegria de participar da história visual dos acontecimentos mais importantes. Fechando com a Copa do Mundo de 1998 na França, ocasião em que eu tive o prazer de ser um dos jornalistas de fotografia credenciados pela FIFA.

Minha paixão pelos esportes, que vem desde as fotos que eu admirava quando estava começando a fotografar com a Rolleiflex, foi também o meu fechamento, fazendo o maior evento de futebol do mundo e no lugar onde a fotografia foi inventada, na França, por Nièpce e Daguerre. Tive o prazer de conhecer também os museus, dentre outros espaços, que são alusivos à fotografia na França e passar um mês inteiro conhecendo os detalhes que fizeram a história da fotografia na França.

A fotografia no Brasil

O Brasil sempre recebeu as revistas daquela época, que eram os veículos mais importantes, e muitas dessas revistas eram revistas específicas de fotografia. Eram as referências da Europa, especialmente da França e da Alemanha, com a escola alemã de fotografia que, particularmente, é grandiosa. Neste despertar da fotografia no mundo, temos no Brasil um movimento muito interessante que é o fotoclubismo.

Em São Paulo tinha o Foto Clube Bandeirantes e no Rio o Foto Clube Brasileiro. Essas associações de amantes da fotografia faziam o papel da escola e a partir deles teríamos os primeiros professores se arriscando a entrar no mundo da escola de fotografia.

Nesse período temos também o papel das universidades, com as Faculdades de Comunicação, que a partir dos anos 1960 ensinavam Jornalismo, Publicidade e Propaganda e tinham, em suas grades curriculares, as disciplinas de Fotografia e Fotojornalismo. Tive a chance de entrar na Faculdade de Jornalismo na PUC-Campinas em 1980. Terminei a graduação e fui para o mestrado na Cásper Líbero. O objetivo era me tornar professor, lecionar a disciplina de Fotojornalismo. Consegui entrar em concurso público em 1987, na PUC-Campinas, onde continuo até hoje.

Minha geração é uma geração que aprendeu fotografia na raça. Tive muita influência das revistas que faziam grandes reportagens das principais escolas de fotografia do mundo. Nós tínhamos as bancas de revistas, que eram enormes e cheias de publicações de todo mundo. Tínhamos dezenas de boas revistas e essa era a maneira de saber o que estava acontecendo de novidade no mundo da fotografia. Particularmente na Europa e EUA.

 

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Eu me interessava mais pela fotografia jornalística, porque essa era a minha função. Nunca levei a sério o tipo de fotografia que não fosse para informar alguém. A fotografia era a própria informação e o segredo era buscar o momento certo na hora certa. Aquela máxima do Bresson de que tudo estará em perfeita harmonia quando você estiver pronto com todos os seus sentidos para registrar alguma coisa.

Não só o Brasil, mas o mundo todo estava seguindo essa velha máxima em um momento em que a fotografia foi absolutamente importante para todos os veículos impressos daquela época. Tínhamos a Revista Photo Magazine, as revistas de informação jornalística, a Photo vinha para dar uma subvertida naquela ideia de que a fotografia era somente a verdade e somente o lado da informação visual. E comecei também, nesse momento, a me interessar por outras linguagens. A linguagem das artes e a da publicidade, que é fortíssima, e a entender o trabalho desses fotógrafos, que ganhavam espaços importantes na mídia visual, particularmente nas revistas. E tudo culminou com minha entrada na Universidade.

Portanto, a efervescência dos anos 70 e 80 estavam nas páginas das revistas e dos jornais. Não tínhamos outras coisas. Não tínhamos a internet. O legal era colecionar as revistas.

Tinha também a National Geographic, que para mim também foi outra grande escola. A NatGeo colocava os fotógrafos nas situações mais fantásticas, nos lugares mais maravilhosos do mundo – e ela ainda faz isso muito bem – e isso influencia todos nós de uma forma muito decisiva e surpreendente para os registros dos lugares mais lindos e inexplorados do mundo.

O legal é que tive a chance de conhecer os grandes fotógrafos, ver o trabalho deles publicado nos jornais do Brasil e ter a chance de ver também o que estava sendo feito lá fora. Portanto, tínhamos a influência de todo mundo. Grandes fotógrafos do Brasil, como Evandro Teixeira, Jean Manzon, Zé Medeiros, Flavio Damm, Domício Pinheiro, Walter Firmo, Jorge Araújo, entre outros grandes nomes, foram todos fotojornalistas fantásticos e isso influenciou muito nossa formação.

Nesse momento nós temos também o Prêmio Esso, que veio para coroar nosso trabalho anual. Quem fazia a melhor foto ganhava o Prêmio Esso. Ganhar esse prêmio era o máximo para você nunca mais se preocupar em procurar trabalho, porque o trabalho vinha até você a partir daí. Então essas coisas todas foram muito marcantes para mim. A chegada do Jornal da Tarde, que foi o filho pródigo do Estadão, que privilegiava as fotos de capa inteira. Tudo isso foi o encantamento dos anos 70 até o começo dos anos 90.

Eu tive o prazer de transitar por esses veículos maravilhosos e, às vezes, até emplacar algumas fotos. E esse momento era interessante porque tínhamos também o debate nas universidades, onde eu tive a chance de trazer profissionais para dar palestras para os alunos, para enriquecer os debates. Eu vivi no meio de toda essa história, porque eu trabalhava tanto no fotojornalismo diário, quanto nos estudos e debates da academia, trazendo esses profissionais da vivência fotojornalística para a academia.

 

Nelson Chinalia ©

Grande parte dos fotojornalistas dessa época, a maioria deles, não tinha formação acadêmica. Eram práticos – maravilhosamente práticos – e estavam muito antenados com o que estava acontecendo no mundo. Era um aprendizado muito importante, porque você sai da academia e vai praticar o fotojornalismo, isto é, consegui conciliar as aulas sem deixar o jornalismo diário.

No Brasil, não temos um olhar fotográfico nacional. Temos pelo menos dois e com certeza deve ter mais, que são os dois nomes mais respeitados lá fora. Um deles é o Sebastião Salgado, que tem uma história belíssima e talvez seja, hoje, o fotógrafo mais importante do planeta – para mim ele é o cara que tem feito uma grande diferença no fotodocumentarismo, embora ele se considere um fotojornalista. E temos também o Mário Cravo, que foi o cara que levou a arte fotográfica nos patamares da fotografia internacional. Na minha opinião, esses são os dois grandes nomes, embora tenhamos vários outros também importantes.

Uma dificuldade que tínhamos no Brasil era o fato de não podermos fabricar o filme. Tudo era e ainda é importado. E a gente sempre dependeu do preço do dólar e então sempre estivemos distantes de qualquer vanguarda. Era o que vinha para o Brasil. Às vezes a Kodak, que era a maior multinacional, mandava material de segunda linha para que a gente usasse como algo normal. Então, dentro desse panorama, até que temos dois representantes bastante interessantes.

Fotografia e verdade

A fotografia não é a verdade, pode ser uma representação de algo verdadeiro. Assim como as palavras não representam a verdade. Elas representam apenas a versão de alguma coisa que poderia ser verdade. Embora a gente acredite que a fotografia não possa mentir, por conta de acreditar que é a máquina que está registrando algo, e ela registra porque está alicerçada pela ciência – pela ótica, pela química, pela mecânica e, agora, pela eletrônica e o código binário com os pixels – portanto, se a máquina fotografou algo então é porque algo muito semelhante aconteceu na frente dela naquele momento e a própria coisa se desenhou no interior da câmera. Isso é interessante: a própria coisa se desenha no interior da câmera e, portanto, é uma réplica absurdamente precisa. Então a humanidade tem isso como uma verdade.

Mas se você estudar um pouco a mensagem fotográfica, verá que ela é feita por humanos e os humanos têm a mania de intervir, como a velha máxima do grande pesquisador da USP, Boris Kossoy, “de alguma forma os fotógrafos sempre manipularam os seus resultados”. Portanto, a gente sabe que a máquina não mente jamais, mas alguns fotógrafos são mentirosos e se utilizam desse recurso.

É difícil dizer taxativamente: “aquilo é a verdade factual”, “aquilo realmente aconteceu”. O que temos na fotografia é uma versão de que algo aconteceu porque foi cristalizado por si próprio dentro do aparelho fotográfico e pela ação de um fotógrafo, movido por uma intenção. E nesse universo de registros, todos sabem que dá para esperar, de alguma coisa que está acontecendo, um momento realmente fantástico. Onde tudo estará em perfeita harmonia, ou mostre algo surpreendente.

 

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A realidade dos fatos, os acontecimentos estão lá diante da câmera, mas todos nós sabemos que esperar o momento pode propiciar uma surpresa fantástica. Esse momento, às vezes, é a própria luz. Portanto, no nosso olhar, hoje, não é apenas definido a partir de como vemos as coisas, mas sobretudo do nosso diferencial. Antigamente, a câmera era muito complicada. Poucas pessoas dominavam as técnicas, a velocidade, o controle de diafragma, a sensibilidade do filme, a distância focal, compensação de exposição, era tudo muito complicado. Hoje está tudo dentro de programas. Os programas já fazem isso de uma forma a facilitar todo o processo, é só pressionar o botão de disparo. Tem muita gente que se diz fotógrafo sem saber o que acontece no interior da câmera.

O próprio telefone possui uma câmera dentro dele e a maioria das pessoas que usam essa câmera nem imaginam como ela funciona. E na época da fotografia purista dos anos 60 e 70 o difícil era entender como funcionava uma Nikon, uma Canon ou uma Rolleiflex. Como é que aquele filme era feito para ser tão preciso daquela forma. Portanto, é bastante interessante dividir a fase da fotografia analógica e a da fotografia digital. Não tem como fugir dessa distinção, porque quando você muda o suporte no qual essa fotografia é cristalizada, você muda todo o conceito do que é o registro da imagem pela luz.

Não existe uma linguagem universal da fotografia, mas grande parte das pessoas do globo entendem o conteúdo, ainda que dependendo da leitura, da cultura ou do conhecimento. As pessoas podem entender, através da fotografia, sem saber as palavras o que aconteceu do outro lado do planeta.

Penso que não existe nada universal. Existem culturas e essas culturas estão na raiz do conhecimento, e a cultura visual é que precisa ser discutida. É uma coisa diferente. O que se vê é diferente do que se lê. O interessante é que quando se vai para a escola a primeira coisa que se aprende é a escrever. Ler e escrever. Mas o reconhecimento visual das coisas e a nomeação das coisas que vemos ainda é pouco estudado. Não se lê uma fotografia como se lê um texto.

Esse é o ponto talvez mais discutido hoje em dia: como vemos a realidade. Como definimos essa realidade. Como fazemos com que outras pessoas possam ver o que estamos tentando mostrar na nossa imagem. Essa é a questão, porque o nosso conhecimento, o quanto nós lemos sobre um assunto ou o quanto conhecemos sobre ele é o que vai definir nosso olhar sobre a coisa.

 

Nelson Chinalia ©

Hoje não se fala mais da câmera. Não se pergunta mais “que câmera você tem?”, mas sim “qual olhar você tem?” Qual o seu olhar sobre alguma coisa? Qual é o seu conhecimento sobre essa coisa? Quanto você leu sobre isso, quanto você entendeu isso e como você representa isso? Portanto, hoje em dia, não é importante o equipamento. Claro que o equipamento é importante para as produções fotográficas, mas hoje a diferença está no olhar. O olhar é o que define aquele que está atrás do visor. E define também aquele que está na frente do computador ou da imagem impressa.

O que vemos, o que entendemos, o que percebemos, o que lemos, o que ouvimos e o que sentimos está impregnado na nossa produção intelectual. E a fotografia é uma produção intelectual. Com todos os direitos de uma produção intelectual. E aí está o diferencial: o quanto você entende e o quanto você lê essa realidade. O quanto você tem de diferencial para entender a mensagem que você quer passar para o outro, a intenção de mensagem visual. Porque toda imagem é uma tentativa de passar para o outro uma mensagem. E o poder dessa mensagem está ligado ao seu conhecimento. O quanto você entende de mundo, porque você está mostrando uma parte do mundo para alguém e isso você mostra não apenas com o seu olhar, mas com todo seu universo cognitivo, com todo seu conhecimento.

Três fotógrafos favoritos

  • Henri Cartier-Bresson
  • Robert Capa
  • Sebastião Salgado

Fotografias singulares e narrativas fotográficas

Hoje em dia as fotografias em sequência estão tendo mais importância. Porque, dentre outras coisas, não se fala mais em momento único, mas em vários momentos utilizados para se construir uma narrativa.

Você pode perceber que os prêmios maiores, hoje, são para imagens em sequência. É uma forma inclusive de dizer que a fotografia não é a verdade. E que para se construir “uma” verdade precisamos de vários momentos. Basta ver a força da televisão e do cinema, do documentário de ter muitas imagens para poder contar uma história.

A fotografia realmente não conta, sozinha, uma história. Ela é apenas uma parte da história, que às vezes é fantástica e muito significante, que cristalizou um momento preciso e necessário ao entendimento, mas hoje cada vez mais temos uma sequência histórica que vem da necessidade de ter muitas imagens.

O que me intriga bastante é que, na época do filme, você tinha o filme de 36 exposições para fazer duas ou três. Antes disso você tinha apenas uma única chapa de vidro, que não podia errar. E hoje nós temos 12 fotos por segundo para você dizer “nossa, que foto linda que eu consegui”. Será que foi você mesmo ou foi a câmera? Ou foi o produto da tecnologia? Essa é uma questão chave, porque o momento decisivo do Bresson acabou e agora nós temos uma sequência de 12 imagens por segundo para dizer “olha como eu sou bom”.

Os mestres

Além do Cartier-Bresson, gostaria de sinalizar outros muito importantes. Todos eles fizeram e fazem parte da minha formação visual, formação como alguém que entende um pouco de fotografia ou que pelo menos tenta entender.

Então, além do Bresson, Lartigue e Salgado, sinalizo também Richard Avedon, Helmut Newton, Annie Leibovitz, Irving Penn, Steve McCurry, Ansel Adams, Dorothea Lange, Elliott Erwitt, David LaChapelle, Patrick Demarchelier, Tim Walker, W. Eugene Smith, James Nachtwey e o grande Robert Frank.

Cada um destes mestres, certamente, influenciaram minha maneira de registrar e ver as coisas e também de buscar um resultado a partir dos olhares que eles trouxeram como bagagem cultural. A gente tem essa coisa de trazer conosco aqueles que nos influenciaram e esses foram muito importantes na minha forma de ver e de registrar o que vejo.

A foto que eu não fiz e a que eu fiz

Tem duas histórias que eu gostaria de dizer sobre a foto que eu não fiz e a que eu fiz. A que eu não fiz foi quando tentaram me contratar para fotografar um grupo de grevistas, ainda nos anos 80, para poder identifica-los e demiti-los de uma empresa. Nessa época eu fotografava para várias empresas, uma delas para a qual eu tinha um trabalho contínuo, pediu-me uma foto e eu disse não.

Não acho que minha fotografia deveria ser responsável pela destruição da vida de um ou vários pais de família. Portanto, essa foto eu não fiz. Mas eles contrataram outro fotógrafo e demitiram uns 50 empregados. Lamentavelmente, se você não faz a foto vem outro e faz, sem nenhum escrúpulo. É muito triste isso.

Outra foto que eu não fiz, porque estava trocando o filme, foi quando o Brasil comprou quatro aviões supersônicos Mirage, da França. Estavam fazendo os primeiros voos em Viracopos. Eu estava sozinho. Um dos aviões apresentou problemas já no voo inaugural e teve que fazer uma descida de emergência. Abriu o paraquedas, para poder frear a velocidade que, obviamente, estava muito rápida na descida. Não fiz a foto porque estava trocando o filme. Só deram a informação de que um dos aviões já chegara com defeito e teve que fazer um pouso de emergência. Perdi a foto e nunca esqueci do fato.

Prêmio Herzog

A foto mais difícil e perigosa foi no fim de uma rebelião com seis mortes no complexo penitenciário da região de Campinas. O helicóptero da polícia estava controlando a área, para que ninguém chegasse e ninguém mostrasse, por conta de que tinham conseguido sufocar a rebelião e deixaram mais de 400 homens nus, em um pátio interno no qual tomavam sol. A polícia achava que ninguém ia chegar, restringindo a chegada de qualquer outro helicóptero.

Felizmente, eu tive a chance de aprender um pouco a pilotar helicóptero e meu professor topou dar uma passada sobre a área, fazendo um cálculo preciso do momento em que a polícia teria que se deslocar do local para reabastecer o helicóptero deles. Nós demos uma passada rápida, os dois, eu e o piloto, com o maior medo porque poderíamos ser abatidos e felizmente eu consegui a única foto que mostra 486 presos nus, para que a polícia ficasse bem brava comigo. O único cara que chegou e fez a imagem fui eu.

 

Foto registrada de presos nus no complexo penitenciário de Hortolândia durante rebelião de presidiários, que recebeu o prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos.
Foto:Nelson Chinalia ©/Correio Popular/21-06-95

Essa foto me rendeu o prêmio Vladmir Herzog, em 1995. Esse prêmio foi, não pela fotografia, que não foi nada excepcional, mas pela ousadia de driblar um helicóptero da polícia com outro helicóptero, conseguindo demonstrar, assim, o que a polícia queria que ninguém visse: o quanto eles podem ser truculentos para combater uma rebelião.

Olhar superficial e leitura fotográfica

O olho humano tem lá todas as suas deficiências, talvez aquela da velha frase: o olho só vê o que você quer que ele veja. O detalhe é que a gente nem sempre está pronto para ver a fotografia. Você tem que despertar o olhar para o registro.

Normalmente faço alguns exercícios com os meus alunos. Faço com que eles caminhem e tentem, de vez em quando, olhar com os outros sentidos. Por exemplo, fechar os olhos e perceber os sons e tentar imaginar o que a máquina faria se o olho fosse o ouvido. É bem interessante você fotografar sem ver e ver o resultado. É um exercício bacana.

O outro é o seguinte: tudo pode ser visto de diversos ângulos. Onde a câmera está em relação àquilo que se quer mostrar. Isso é o que define o ponto de vista de quem quer mostrar algo que todos já viram. Onde a máquina está? Qual é o ângulo de visão de quem está fotografando? O que ela está captando? Tudo isso tem um diferencial que acaba fazendo com que você tenha o seu olhar. E o olhar é construído. Não é com uma, duas ou três fotos, tampouco com um, dois ou três anos, mas a partir do décimo ano talvez você terá um olhar maturado e pronto para aquilo que você pretende.

Dois livros para pensar a fotografia

E para isso eu te proponho a fazer umas leituras, por exemplo, a Câmera Clara de Barthes, para tentar entender o que está por trás daquelas histórias. E também há outro livro bem recente, para contrapor ao Câmera Clara, que é o Como Ler a Fotografia. Porque a fotografia não foi feita para ser vista. Foi feita para ser lida e interpretada. Esse livro fala dessa mudança, dessa proposta de mudar o ponto de vista de quem está acostumado com o digital.

Existe um livro que se chama Fotojornalismo: Uma Viagem Entre o Analógico e o Digital, que é do professor e meu companheiro de congressos pelo Brasil, Erivan de Morais, junto com o Ari Vicentin, que é um advogado e que a fotografia o adotou. Ele virou um dos grandes fotógrafos de São Paulo. Esses livros são bem importantes para que você possa ter uma visão fora das técnicas fotográficas.

A fotografia no cinema

Dos filmes que mais me influenciaram, há o super clássico Janela Indiscreta, imperdível, maravilhoso, preto e branco, com tomadas clássicas, muito legais. O Blow-Up, um clássico, que me influenciou muito nos anos 1970 e 1980. E um mais novinho aí, chamado Mil Vezes Boa Noite, de Erik Poppe. Esses três filmes são muito interessantes e não podemos esquecer que temos muitos documentários bacanas também e talvez os mais legais sejam os dessa fase do Sílvio Tendler, que se chamam Caçadores da Alma. Há uma série de documentários que vale a pena serem vistos. São recentes e dão uma boa visão da atual fase da fotografia no Brasil.

Entre os documentários do Sílvio Tendler destaco um que se chama A Fotografia Aliada às Outras Artes. Esse é o caminho na atualidade. A fotografia já não é mais o resultado daquilo que está diante das lentes. Ela já transcende a outra potência que, aliadas às outras artes, é o caminho da fotografia entre a fusão do vídeo, do filme e da imagem parada, da imagem química.

Hoje, a fotografia é uma mistura que todo jornalista, profissional da imagem, fotógrafo, artista, todos os interessados em capturar imagens têm que desenvolver um olhar e ler muito sobre essas novas tendências da arte aplicadas sobre a fotografia e a fotografia aplicada à arte. As coisas se imbricam, se encontram e com certeza não teremos uma fotografia como tínhamos até o ano 2000.

O digital tem no máximo 20 anos. Ele está em adequação e todos nós que produzimos imagens temos que estar pesquisando sobre isso. Como essa imagem está nos incomodando. Como nosso olhar pode incomodar quem receber essa imagem? Como ela pode ser o exercício de um olhar que está preocupado em mostrar o outro no seu ambiente? Como é que essa fotografia pode intervir na realidade e como essa realidade pode intervir na fotografia?

O que esperar da fotografia

Olhar o mundo e descrevê-lo a partir do seu olhar. O Criador nos deu duas câmeras fotográficas maravilhosas. Muito superiores à melhor câmera que você pode imaginar que está à venda. São seus olhos. Esses olhos, que quando você abre vê tudo, com a perfeição dos detalhes e esses detalhes são definidos como linhas, curvas, formas, cores, contrastes e tudo o que define as texturas, os detalhes da natureza. Tudo isso é de graça e está na sua câmera de descrever o mundo.

A câmera, então, deverá ser no máximo o que o seu olho está percebendo, avaliando e entendendo como algo que lhe é dado gratuitamente. Portanto, a câmera deverá registrar o seu entendimento de tudo isso. Essa é a questão-chave: o entendimento de como as coisas se dão e como elas harmonicamente podem ser perfeitas. A perfeição que é dada pela organização dessas coisas que nos impressionam dentro de um quadro.

Assim, os pintores faziam suas representações e assim nós fazemos nossas representações a partir daquilo que observamos e principalmente apreciamos. Essa apreciação é que nos vai dar a forma de como você descreve, a partir da sua visão, aquilo que te encanta. E obviamente, o que te encanta é o seu conhecimento sobre essa coisa.

É interessante pensar, antes de se imaginar como um fotógrafo, imaginar-se como um observador. A observação é que te leva a entender as formas, cores, texturas e tudo o que compõe o que está diante do seu olhar. A câmera vai apenas recortar aquilo que agrada, aquilo te impressiona e aquilo do qual você é grato – principalmente a questão da gratidão, daquilo que você consegue visualizar com a sua cultura, com sua informação e conhecimento.

 

Nelson Chinalia é professor de Fotografia e Fotojornalismo da Puc-Campinas, foi fotógrafo e editor de fotografia do Correio Popular, ganhou o Prêmio Vladmir Herzog em 1995 com a fotografia “Violência Nua”. Pesquisador Grupo de Pesquisa Memória e Fotografia (GPMeF) da UNICAMP.

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