Pensar a Imagem, Volume 1, Ano 2018

Luciano da Costa e a fotografia como forma de pensamento

5 de março de 2018

“Por estar muito próximo à discussão urbana em meu trabalho, dedico muito de minha atenção às cidades e aos modos como elas se desenvolvem e evoluem no tempo. Junto a isso, a noção de paisagem comparece constantemente em minhas fotografias. Sou fascinado pelas mudanças de luz e como elas modelam o espaço, permitindo conhecer novas formas de viver e morar no mundo” – Luciano da Costa.

Espessuras do Olhar

© Luciano da Costa

 

© Luciano da Costa

 

© Luciano da Costa

 

© Luciano da Costa

 

Série Espessuras do Olhar – Em 2002, o recém-inaugurado Shopping Dom Pedro estampava em suas lojas desocupadas a imagem de Praças da Campinas dos anos 30. No encontro entre a imagem de época e do novo espaço de consumo, é possível reconhecer uma educação dos sentidos e dos valores próprios ao tempo que hoje vivemos. Essa fotografia foi feita em filme fotográfico TMAX 3200, sem qualquer montagem ou pós-produção da imagem.

 

Estados de Paisagem

© Luciano da Costa

 

© Luciano da Costa

 

© Luciano da Costa

 

Série Estados de Paisagem (2014) – as fotografias dessa série vêm sendo realizadas em regiões de expansão de Poços de Caldas. Procuram discutir o gênero Paisagem por meio do registro das novas espacialidades que emergem nas periferias de nossas cidades. A foto apresentada foi realizada com câmera digital Nikon D600, tendo um tratamento que procura valorizar a dramaticidade da luz do ambiente.

 

GRU-111

© Luciano da Costa

 

Série GRU-111 (2016) – Aeroportos são o objeto e ambiente dessas fotografias que, em sua assepsia e sistematicidade, são compreendidos como dispositivos de invisibilidade. Locais onde os usuários e as relações de trabalho dos funcionários se dão como parte de um teatro minuciosamente regulado a fim de realizar operações definidas. GRU-111 refere-se ao aeroporto de Guarulhos e, em particular, aos 111 trabalhadores que, durante a construção do terminal 03, foram identificados em condições de trabalho análogas à escravidão. É um trabalho vinculado  ao projeto “Contracartografias”, desenvolvido pelo  NEC USP em parceria com a Escola da Cidade.

Como surgiu o interesse pela fotografia?

São alguns pequenos acontecimentos que foram se somando. Ganhar uma pequena máquina de aniversário, que talvez alguns poucos conheçam, a Tekinha. Fazer um curso de fotografia e de laboratório fotográfico e ser o único a completá-lo. Fazer um curso de desenho e descobrir que meu olhar ansiava pela precisão e rapidez de registro da fotografia. E por fim, descobrir que a fotografia nos permite fazer e cultivar amizades, o que me fez conhecer muitas pessoas nos anos em que morei em Campinas e depois aqui em Poços de Caldas e agora aqui em Pouso Alegre.

Como você define fotografia?

Do ponto de vista de minha produção, é uma forma de pensamento e de expressão sobre o mundo, tendo a visualidade como fio condutor.

Quais perguntas movem seu olhar fotográfico hoje?

Por estar muito próximo a discussão urbana em meu trabalho, dedico muito de minha atenção às cidades e aos modos como elas se desenvolvem e evoluem no tempo. Junto a isso, a noção de paisagem comparece constantemente em minhas fotografias. Sou fascinado pelas mudanças de luz e como elas modelam o espaço, permitindo conhecer novas formas de viver e morar no mundo. Mas, também, por me dedicar ao ensino, gosto de descobrir novos trabalhos fotográficos, me chamando muito atenção a fotografia autoral com um cunho intimista capaz de transmitir uma sensação, um sentimento de forma inusual por meio da imagem.

O que é uma boa foto?

Pergunta difícil de responder. Hoje procuro boas fotos dentro de uma sequência ou narrativa fotográfica. Assim, uma boa foto é aquela que me causa curiosidade (emoção, reflexão) a ponto de desejar ver outras que compõem o mesmo trabalho.

Indique três fotógrafos que constituem referências de inspiração do seu modo de ver a fotografia.

Vou citar mais de três fotógrafos. Um clássico que a mim sempre inspira, Robert Frank. Mas há também Lewis Baltz e Joseph Koudelka, embora um seja mais conceitual e o outro documental e expressivo, me interessa a intensidade de seus olhares e as leituras que promovem de nossa sociedade. No Brasil, Miguel Rio Branco e Maureen Bassilliat. Recentemente, estou conhecendo mais de perto o fotógrafo Wolfgang Tillmans, suas sequências fotográficas e modos de montagem são por vezes desconcertantes, ele tem me ajudado a compreender a produção contemporânea.

Se pudesse escolher uma fotografia ou uma série mais importante para você, qual seria ela e por que? 

Tenho preferência por séries, a meu ver demonstram melhor o envolvimento de um fotógrafo com seu tema e o seu repertório visual. Assim, aponto alguns livros de fotografia: 1) The Lines of My Hand, de Robert Frank, pela espontaneidade, invenção e intimidade das imagens; 2) Paisagem Submersa, Cia da Foto, por reinventar e encenar a fotografia documental brasileira; 3) Luz e Trevas, Maureen Basilliat, por sua sensibilidade em aproximar literatura e fotografia.

Das fotografias que eu realizei é a série que eu chamo de Espessuras do Olhar, sobre a percepção nas grandes cidades.

Qual foi a melhor foto que você não fez?

Eu acho que fiz algumas boas fotos e tem épocas que gostamos mais de uma ou de outra. Uma delas foi a foto do fluxo de pessoas dentro Shopping Dom Pedro, em Campinas. Nela, o ritmo dos transeuntes, o instante de captação e os valores associados ao uso desses espaços estão todos ali presentes

Qual fotografia você jamais faria? Por que?

Acho que fotografia de esportes radicais, principalmente se eu tiver que praticá-los para fotografá-los.

Indique três bons livros sobre fotografia.

Como já mencionei acima livros de fotografia autoral apresento aqui alguns com uma abordagem teórica. O beijo de Judas de Joan Fontcuberta porque é um dos primeiros livros que apresenta um olhar ensaístico sobre a produção fotográfica contemporânea, além de ser uma grande fonte de referências de trabalhos fotográficos.

O fotográfico de Rosalind Krauss, são ótimos os textos que nos permitem entrar em contato com uma compreensão ampliada de fotografia, a partir de movimentos estéticos marcantes da história da arte e da fotografia.

A Câmara Clara de Roland Barthes, depois de muitas (re)leituras, inclusive de textos críticos sobre esse livro, continua sendo uma obra inaugural, fonte de inspiração e compreensão sobre a fotografia mesmo nos tempos da imagem digital.

Um filme para a fotografia.

Encontros e desencontros, não é propriamente um filme sobre fotografia, mas gosto muito pela combinação entre delicadeza de uso dos poucos recursos de filmagem e a forma extremamente presente com que capta a alma de Tokio.

 

Luciano da Costa é fotografo e doutor pela FAU-USP com trabalho sobre fotografia urbana e a metrópole moderna e contemporânea. É professor do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (IAU-USP), da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas) do IMS-Poços de Caldas.

www.lucianodacosta.com

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