Pensar a Imagem, Volume 1, Ano 2018

Entre bíos e zoé: metafísicas ameríndias na fotografia de José Caldas

5 de março de 2018

Para se referir à vida, os gregos possuíam duas palavras distintas: a z, que significava, dentre outras coisas, a vida natural, a vida sob um modo de sobrevivência; e a bíos, que designava a vida política, a vida qualificada pela dimensão daquilo que se considera uma vida plena em todas as suas potencialidades.Na Política de Aristóteles podemos encontrar esse jogo simbólico entre zoé  e bíos, vida animal e vida política. Entretanto, não se trata de uma oposição antonímia. A diferença entre zoé e bíos é uma diferença de grau, não uma diferença de categorias. Não se trata de uma distinção entre humanos e animais, mas sim um limiar entre vida animal e vida politicamente qualificada. Entre a vida zoé e a vida bíos existe uma graduação, uma escala segundo a qual nós podemos viver como animais políticos. Às vezes mais animais do que políticos.

 

© José Caldas

 

 

 

© José Caldas

 

 

© José Caldas

 

 

© José Caldas

 

 

© José Caldas

 

A diferença entre z e bíos está ligada a outra distinção importante do mundo grego: oikos e pólis. A qual corresponde, em certo sentido, à distinção romana entre domus e civitas. Oikos designa, dentre outras coisas, a dimensão da vida privada, o habitat onde nós vivemos, nossa casa. Oikos constitui a origem do radical “eco”, tanto da eco-logia quanto da eco-nomia, quer dizer, tanto do estudo do lugar onde vivemos, quanto das normas ou regras desse lugar. Por outro lado, a pólis é a dimensão da vida pública, da vida comunitária. É o arquétipo de uma certa forma de organização política, que designa justamente o espaço no qual convivemos e o lugar que podemos ocupar nesse espaço. A esfera de (co) vivência com os outros.

A fotografia de José Caldas não se refere à zoé, à vida animal desqualificada politicamente. Tampouco institucionaliza em sua linguagem a bíos, a vida política, a vida em sua plenitude. O fotógrafo sergipano inventou um modo diferente de nos situar sobre os espaços da vida: nem vida de sobrevivência animal, tampouco vida politicamente qualificada, mas uma indiferenciação do limiar que separa humanos e animais, sujeitos e objetos, corpos e espíritos. Um ato de subversão das relações lineares entre zoé e oikos, como também entre bíos e pólis. Uma atitude desconstrucionista das conexões milenares entre vida desqualificada e economia doméstica, de um lado, e vida qualificada e poder político, de outro.

José Caldas desconstrói, com sua fotografia, o traço histórico que segrega a vida animal desqualificada da vida política. Na sua narrativa, uma montanha da Mantiqueira, uma árvore sobrevivente do Baixo São Francisco, o retrato étnico de um grupo indígena ou um grupo de crianças jogando bola na periferia de uma cidade qualquer conquistam o mesmo grau de dignidade política. Como se uma montanha, diferentemente do pensamento grego, exigisse ser tratada como um ser vivo dotado não só de zoé, mas de bíos. A natureza-objeto se torna sujeito político nessa narrativa. E isso é, exatamente, uma das mais significativas diferenças entre a cosmologia do pensamento ameríndio em relação ao pensamento europeu ocidental.

 

© José Caldas

 

Com efeito, como sinalizou Lévi-Strauss em uma de suas pesquisas antropológicas sobre os povos ameríndios, quando os europeus colonizaram as américas, eles matavam os índios para ver se seus corpos tinham alma. Porque a existência da alma, do espírito, era o que distinguia os homens dos animais. Os europeus tinham dúvidas a respeito do estatuto ontológico dos selvagens ameríndios: eram homens ou animais? Tinham alma ou apenas instintos? Se mortos, competiriam com o europeu por espaços no céu ou iriam para outros lugares inimagináveis? Por outro lado, os ameríndios também matavam os europeus, mas por outros motivos: para ver se seus corpos flutuavam, ou se apodreciam. Isso porque, na cosmologia ameríndia, era óbvio que os europeus, como todas as coisas, possuíam alma.

 

© José Caldas

 

Na cosmologia ameríndia, não apenas os animais, mas uma pedra, um rio, uma cachoeira ou uma montanha também possuem espiritualidade. Também possuem alma. A separação entre corpo e alma, mens et corpus, é uma construção de sentido genuinamente eurocêntrica. Ela não possui correspondentes em outras cosmologias. Tanto que a figura mitológica do xamã siberiano possui um correspondente incrivelmente semelhante nos povos ameríndios. Aquele sujeito místico, que possui a misteriosa capacidade de transitar pelos espíritos dos outros animais, de plantas e até de montanhas, rios e planícies. Um sujeito que possui competências e habilidades para se comunicar com a alma que habita os demais seres vivos: animais, plantas, pedras, montanhas, rios e tudo o que, na cosmologia ameríndia, possui alma. A possibilidade mitológica de se utilizar os olhos de um falcão para enxergar o horizonte, a vivência da velocidade de uma onça para correr com o pensamento pela floresta ou a sabedoria milenar de uma formação rochosa. Uma conexão especial entre seres vivos sencientes, corpos e almas, sujeitos e objetos, que ultrapassa as categorias científicas da racionalidade do pensamento ecológico moderno.

 

© José Caldas

 

A concessão pictórica da fotografia de José Caldas dialoga com essa cosmologia ameríndia, não europeia, que consegue enxergar uma paisagem natural como algo muito maior do que uma relação entre elementos minerais, vegetais ou animais. A paisagem como sujeito, não como objeto. Retratos de outras metafísicas. Documentos que sinalizam o estatuto ontológico da alma da Natureza. Arquivo que registra a potência selvagem de uma linha de pensamento ortogonal aos padrões e modelos definidos pelo paradigma dominante e seus movimentos.

Os lugares e a sutileza das suas relações aparecem na narrativa fotográfica como alguma coisa situada não na, mas entre zoé e bíos, oikos e pólis. Lugares naturais fotografados, paradoxalmente, como esferas políticas. Corpos selvagens dotados da dignidade da bíos. Objetos de propriedade sublimados das categorias tradicionais da colonização europeia, apresentados como sujeitos de dignidade. Como se a Natureza, em suas fotografias, tivesse algo para além do sublime, para além de uma estética modernista sofisticada e para além da questão do belo. Como se a Natureza reconquistasse, subversivamente, sua alma, seu espírito e sua dignidade.

 

© José Caldas

 

Não se trata simplesmente de um olhar atento aos padrões daquilo que nós reproduzimos como padrões da nossa brasilidade: a carroça, o agricultor, o índio e as paisagens naturais exuberantes, em cujas linhas se desenham a geopolítica da exclusão social brasileira. O olhar de José Caldas nos conduz a outras formas de brasilidade, muito distintas dos padrões urbanos de consumo do exótico, do sublime ou do inusitado. A brasilidade inscrita em suas composições não é a do europeu colonizador, que aprecia as belezas naturais como dispositivos de consumo daquele imaginário quatrocentista do exótico e do exuberante. Mas também não é a brasilidade acadêmica, construída nos anos de 1930, do brasileiro cordial, que mistura os assuntos de Estado com os de família, que conduz suas relações sociais baseadas mais nas emoções do que nas razões. A brasilidade inscrita no olhar do fotógrafo é muito mais a de Gilberto Freyre do que a de Sérgio Buarque de Holanda ou Raymundo Faoro. O artista estabelece relações ligadas ao espírito da Natureza, da rua da infância, do trabalho na terra ou das obras humanas. Sem apresentar isso como uma relação de cordialidade ou de falta de racionalidade. É outra relação que se estabelece ali. A fotografia de José Caldas apresenta aquela sutileza preciosa da brasilidade ameríndia, que procura ver a alma das coisas ao invés do preço ou do valor delas.

 

© José Caldas

 

© José Caldas

 

© José Caldas

 

Lembrando uma reflexão de Immanuel Kant, as coisas podem ter um preço, um valor ou uma dignidade. As coisas que podem ser trocadas ou substituídas por outras possuem um preço. São consumíveis, descartáveis e renunciáveis. Mas existem coisas que não podem ser trocadas ou substituídas, porque elas possuem um valor, isto é, porque desempenham uma finalidade importante. As coisas que são importantes para outras possuem valor. E o valor é muito mais importante do que o preço. Porque o valor que as coisas têm, uma em relação às outras, não têm preço. Todavia, existe uma categoria especial de coisas que não precisa desempenhar uma finalidade importante, porque elas são fins em si mesmas. São coisas cuja importância subsiste por si só e não precisam justificar seu valor em relação a outras. Esta categoria das coisas que possuem um fim em si mesmas não são coisas que têm preço, tampouco valor: elas têm dignidade.

 

© José Caldas

 

© José Caldas

 

© José Caldas

 

Nós podemos pensar, sob a tradição de um pensamento liberal-europeu, que uma árvore ou um terreno possuem preço, porque podem ser livremente trocados por outras mercadorias. Ou podemos pensar, seguindo uma linha ecológica dos anos de 1960, que uma árvore ou um terreno não possuem preço, mas sim um valor, porque tratam-se de elementos imprescindíveis para o equilíbrio e para a sustentação das condições de vida de várias espécies. Tanto a árvore quanto o terreno fazem parte da “teia da vida” e são importantes para ela. Contudo, sob uma cosmologia ameríndia, a árvore ou um terreno não são importantes porque podem ter preço ou valor, mas porque são fins em si mesmos, porque têm dignidade, porque tanto uma árvore quanto um terreno são seres vivos dotados de espiritualidade.

 

© José Caldas

 

Na cosmologia ameríndia, podemos nascer em uma vida na forma de humanos; mas em outras, podemos assumir outras formas de vida: rios, florestas, animais, rochedos, montanhas. Ao destruir uma árvore, um terreno ou um rio estamos sacrificando uma vida. E não se trata simplesmente do valor de uma vida no sentido da utilidade, mas sim da sua dignidade. Porque tanto uma árvore quanto um terreno ou um rio não são importantes apenas porque eles servem para alguma coisa, mas sobretudo porque eles possuem uma dignidade, uma finalidade em si mesma, uma importância que independe de uma relação de utilidade com outras coisas.

Poucos fotógrafos conseguem, como José Caldas, estabelecer esse tipo de conexão entre os elementos da imagem e o imaginário subliminar que emerge por trás de suas potências de sentido. Poucos fotógrafos conseguem ultrapassar o limiar que separa o belo e o sublime do trivial, para encontrar a fronteira entre as diferentes formas de produção de sentido daquilo que nós reconhecemos como índices da nossa própria brasilidade. E muito poucos fotógrafos conseguiram estabelecer, em suas narrativas visuais, esse tipo diferente de relação com a Natureza, com a rua da infância ou com os espaços de ocupação do trabalho e da urbanidade, cuja cosmologia se desenvolve sob um plano muito mais selvagem do que civilizado, muito mais ameríndio do que eurocêntrico e, nesse sentido, muito mais subversivo do que redundante dos clichês e estereótipos produzidos e reproduzidos pelos meios de comunicação de massa.

Na sutileza dessa distinção, traçada por José Caldas, nós podemos pensar na diferença entre, de um lado, a Serra da Mantiqueira como um obstáculo cheio de perigos e armadilhas para a pretensão colonizadora dos portugueses, e do outro lado a mesma Mantiqueira como o habitat, a floresta gotejante, as montanhas que choram as águas, que sustentaram a vida de várias tribos guaranis durante muitos séculos. Uma coisa é a abordagem eurocêntrica da visão do paraíso, outra é a visão da mesma referência simbólica de sentido, todavia como algo familiar, cotidiano e imanente. Esta é, segundo uma leitura possível, a diferença da fotografia de José Caldas em relação a outros fotógrafos de natureza. Nesta sutileza da cosmologia ameríndia situa-se a identidade do seu olhar, a especificidade do seu modo de produção de sentido. A natureza nem como objeto, tampouco como sujeito. Nem zoé, tampouco bíos. Mas como uma referência de sentido que transita, tal como um xamã de luz, pelos diálogos mitológicos entre as espiritualidades da Natureza.

 

© José Caldas

 

A fotografia de José Caldas permite repensar a relação que nós, brasileiros, estabelecemos com a Natureza, com a rua na qual vivemos nossa infância e com os modos de ocupação dos espaços urbanos hoje. Ela possui uma mensagem ecológica, antropológica e política importante. Talvez por isso que, escondido atrás do valor pictório das suas belas imagens, insinua-se um estrato de sentido muito mais profundo e potente, inscrito na própria arqueologia dos mitologemas da brasilidade moderna. Tal como a obra dos sobrados e mucambos de Freyre, a fotografia de José Caldas fala do paradoxo de uma organização política singular da nossa brasilidade, que convive, sob um estado de constante tensão, entre cosmologias europeias e ameríndias, urbanas e rurais, centrais e periféricas, naturais e construídas. Um universo muito diferente das relações entre zoé e bíos, oikos e polis. Um conjunto de imagens inscrito na especificidade de um olhar genuinamente brasileiro sobre nós mesmos e a relação que estabelecemos com a Natureza.

 

© José Caldas

 

© José Caldas

 

© José Caldas

 

José Caldas é fotógrafo especializado em fotografia de natureza e documentação geográfica. Possui diversos livros publicados, além de exposições no Brasil e no exterior. Recebeu diversos prêmios nacionais e internacionais, dentre eles o prêmio Marc Ferrez – IBAC/FUNARTE pela documentação fotográfica do Baixo São Francisco em 1992.

 

© José Caldas

 

Fotografias: José Caldas ©

Texto: Rafael Simioni

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