Foto em Pauta, Volume 1, Ano 2018

A poética do enquadramento na fotografia de Armando Vernaglia Junior

5 de março de 2018

“Uma boa fotografia é a imagem que consegue nos tirar do ritmo, aquela que decidimos parar e olhar por mais tempo, que por qualquer razão nos tira do que estamos fazendo e pensando e nos leva a pensar na imagem que estamos vendo” – Armando Vernaglia Jr.

 

© Armando Vernaglia Jr.

 

© Armando Vernaglia Jr.

 

© Armando Vernaglia Jr.

 

© Armando Vernaglia Jr.

 

Fotografia, para mim, é o registro do que vejo, do tempo em que vivo, dos lugares onde estou, é um registro deste curto período de existência que tenho aqui neste mundo, e consequentemente o registro daqueles que comigo estão aqui ao mesmo tempo, as pessoas próximas, os lugares, as situações. Fotografia é um momento fugaz, não é eterna, não vai durar tanto assim, mas é importante hoje. Temos que lembrar que a humanidade como conhecemos é recente comparada com a idade deste planeta no qual vivemos, então nada é eterno, nem nós nem nossos registros, mas ainda assim fotografia é um registro importante de quem somos e o que fazemos enquanto estamos por aqui.

 

© Armando Vernaglia Jr.

 

Meu olhar fotográfico se guia por duas questões iniciais: o que eu gostei aqui, o que não gostei aqui. O processo todo começa com isso, o gostar e o não gostar, não necessariamente algo bom e algo ruim, mas o gostar pode ser sobre algo que me incomoda, que quero mostrar por achar que é uma denúncia, algo esquecido que precisa de atenção, talvez melhor do que gostar e não gostar seja eu dizer o que acho importante aqui, o que não acho importante aqui, meu processo começa assim.

© Armando Vernaglia Jr.

Acho que uma boa fotografia é a imagem que consegue nos tirar do ritmo, aquela que decidimos parar e olhar por mais tempo, que por qualquer razão nos tira do que estamos fazendo e pensando e nos leva a pensar na imagem que estamos vendo. Uma boa foto nos prende, acho que é isso.
Três fotógrafos que são referências para mim, que influenciaram em meu estilo, três não, vou citar quatro, pelo menos quando estamos falando do estilo em trabalhos autorais, pois em trabalhos comerciais a situação é bem mais fluida. Mas em termos autorais eu diria que o húngaro Brassai, um outro húngaro, Martin Munkácsi e dois cineastas, o italiano Federico Fellini, especialmente em seu filme 8 e 1/2 (Oito e Meio), e o francês Alain Resnais, especialmente no filme O Ano Passado em Marienbad, ambos definiram muito do que gosto e acredito em termos de preto e branco e enquadramento. E junto com os dois fotógrafos que citei formam o suporte estético do meu trabalho autoral.

© Armando Vernaglia Jr.

Algumas das imagens mais importantes para mim não vieram de fotografias, mas do cinema. O filme 2001 de Stanley Kubrick: vi pela primeira vez quando era criança e aquilo despertou completamente minha atenção para o mundo visual, para a construção de imagens, para a poesia possível quando imagens e sons se unem. Além disso Kubrick me apresentou o enquadramento com perspectiva profunda, com um ponto de fuga ao centro ou quase ao centro do quadro levando a uma viagem visual em cada enquadramento, uso essa forma de compor muito na minha fotografia, tanto autoral como comercial, então 2001 do Kubrick é seguramente uma obra de arte definidora para mim, é em meu modo de ver a maior obra de arte produzida no século XX, e olha que muita coisa boa foi feita no século XX.

© Armando Vernaglia Jr.

Não sei responder se perdi ou não alguma foto importante. Gosto ou desgosto das que fiz. Quando não tinha câmera estava vivendo o momento. Gosto da experiência da vida, então tem muitas situações que não tenho fotos, mas cujas memórias afetivas são maiores do que os registros possíveis. Acho que o que eu queria ter fotografado, eu fotografei, e o que não fotografei é por que é melhor assim, sem foto e sim com a vivência do momento.

© Armando Vernaglia Jr.

 

Não fotografo a morte, não fotografo doentes terminais. Há quem faça isso e não estou aqui julgando, apenas são momentos tristes demais para serem comportados pela fotografia em meu modo de ver. Há quem fotografe esses momentos e há quem saiba fazer isso com dignidade, mas eu não teria a condição de fazer isso. E comercialmente falando, não fotografo políticos, de nenhuma lateralidade ou direcionamento, prefiro manter uma distância saudável deles.

 

© Armando Vernaglia Jr.

Há muitos bons livros sobre fotografia. São tantos, difícil separar apenas três. Mas vamos lá: o livro Paris, com as fotos de Brassai. Outro é A Fotografia Moderna no Brasil, de Helouise Costa e Renato Rodrigues da Silva, é um livro muito difícil de achar, esgotado há tempos, mas que vale o esforço e vale cada centavo que custar. E por fim A Fotografia, entre documento e arte contemporânea, de André Rouille.

Não vou indicar filmes sobre fotografia, mas com excelente fotografia, então indico 8 e 1/2 de Fellini, Ano Passado em Marienbad de Alain Resnais, 2001 de Kubrick e para fechar com um que ainda não citei, Lavoura Arcaica, filme de Luiz Fernando Carvalho com fotografia do genial Walter Carvalho.

 

© Armando Vernaglia Jr.

Para os fotógrafos que estão iniciando na fotografia, meu conselho é: fotografe muito, estude muito. Se cada um passar mais tempo fotografando e estudando fotografia, e menos tempo perdendo tempo brigando em redes sociais, ou simplesmente perdendo tempo na internet… e veja, a internet não é por si uma perda de tempo, podemos estudar muito pela internet pois temos acesso a conteúdos do mundo inteiro, mas sabemos que há infinitas perdas de tempo online que consomem horas preciosas. Então fotografar muito e estudar muito, perdendo menos tempo com coisas sem importância seriam as minhas dicas para todo mundo que hoje está começando. Fazer qualquer fotografia é fácil, mas fazer um trabalho que se destaque exige muito tempo, estudo e treino.

 

Armando Vernaglia Junior é fotógrafo, cinegrafista e professor.

www.vernaglia.com.br

Comentários

You Might Also Like