Entrevista, Volume 1, Ano 2018

Marilise Cesa e a vivência no Clube do Fotógrafo de Caxias do Sul

4 de março de 2018

A Err01: Revista de Fotografia do FCPA conversou com Marilise Cesa, associada do Clube do Fotógrafo de Caxias do Sul – CFCX, que neste ano de 2018 estará sediando a XXX Bienal Brasileira de Arte Fotográfica em Preto e Branco. 

Para você, o que nasceu antes: a fotografia ou o fotoclubismo?

Embora sempre tenha admirado boas fotografias e convivido de perto com o hobby que, antes, era apenas do meu marido, posso dizer, sem errar, que a prática da fotografia foi mais sedutora para mim depois de ter acompanhado uma expedição fotográfica pela Patagônia argentina e conhecido o pessoal do Clube do Fotógrafo de Caxias do Sul-CFCX.

Como surgiu o seu interesse pela fotografia?

Meu olhar já era sensível a muitas imagens, especialmente as que retratavam a natureza selvagem e as fotografias de rua ou fotojornalismo, mas costumava solicitar o click ao meu marido, que era bem mais craque do que eu no gatilho. Mas, em 2011, ao acompanhar um grupo de fotógrafos pela Patagônia, me encantei com o olhar do grupo, com o tempo de contemplação e respiração que cada um usava para produzir suas imagens. Em apenas 15 dias aprendi com eles, de imediato, que para se obter a melhor imagem precisava esperar pela melhor luz, compor o melhor ângulo, usar o tempo sem pressa, olhar, respirar e sentir antes de clicar. Aquele “desacelerar” da vida me seduziu de forma fascinante. Senti que precisava, urgentemente, aprender mais sobre a técnica fotográfica para poder viver naquele ritmo de encantamento e registrar as coisas belas e/ou intrigantes da vida que me moviam. Assim, tão logo retornei da expedição, tratei de fazer um curso básico de fotografia, adquirir equipamento, ingressar no CFCX e iniciar um aprendizado que continua evoluindo até os dias de hoje. Não bastasse o aprimoramento na arte fotográfica, o convívio entre os fotoclubistas é simplesmente apaixonante.  Virou um vício, uma cachaça, como a gente costuma brincar, não tem como parar!

© Marilise Cesa

O que é fotografia para você?

Desde que comecei a me dedicar com mais profundidade aos estudos da fotografia, passei a observar o pulsar do mundo, a correnteza dos dias, a natureza e as relações interpessoais com mais vagar, analisando seus detalhes, buscando o melhor momento, a melhor luz e composição. Tudo começou a ficar enquadrado diante dos meus olhos, independentemente de estar usando um equipamento para registrar aquele instante congelado em minha mente. A fotografia tem me tornado melhor intérprete do mundo, das cenas e imagens que vejo. Atribuo à ela a feliz capacidade contemplativa e/ou crítica que venho desenvolvendo e aprimorando perante a vida. Gosto de voltar pra casa, após uma saída fotográfica, e revisitar os momentos vividos através de minhas imagens, é, de fato, uma forma de congelar o tempo.

© Marilise Cesa

O que é uma boa foto?

Na minha opinião, uma boa foto é aquela que associe técnica razoável e adequada ao poder de sensibilizar o intérprete, de fazê-lo parar, fixar o olhar e que lhe dê espaço para desenvolver suas interpretações a partir de seu próprio conhecimento sobre as coisas. Obviamente há muitas fotos lindas e tecnicamente perfeitas que nos prendem pela excelente composição, foco e desfoque, incidência de luz e sombra, são boas fotos, sem dúvida, mas se estiverem associadas a uma carga de leituras e sentimentos, capazes de me impressionar, me comover ou me incomodar, então, para mim, serão arrebatadoras.

© Marilise Cesa

A historia da fotografia brasileira está ligada ao movimento do fotoclubismo. Qual é o papel do fotoclubismo hoje no desenvolvimento da arte fotográfica?

A fotografia brasileira tem uma forte influência dos fotoclubes. Eles são os motivadores, educadores e multiplicadores da arte, além de virem participando na formação de excelentes profissionais para o mercado fotográfico. Para citar um exemplo, o Foto Cine Clube Bandeirante, fundado em 1939, o mais antigo do país em atividade, esteve presente na história de premiadíssimos fotógrafos brasileiros, tais como José Yalenti, Gaspar Gasparian, Chico Albuquerque, Thomas Farkas, German Lorca, Roberto Yoshida, Eduardo Salvatore, José Oiticica Filho, Marel Giró, Madalena Schwartz, Rubens Teixeira Scavone, Geraldo de Barros, Ademar Manarini, entre outros. E esse berçário continua a criar rebentos dentro dos ambientes dos mais de 100 fotoclubes espalhados pelo país e que são reconhecidos e regulados pela Confoto. A cada edição de uma Bienal os fotoclubes apresentam um show de imagens de seus associados e lançam no mercado novos e promissores talentos. Além disso, o papel que os fotoclubes desempenham dentro das comunidades onde estão inseridos é fundamental para difundir a fotografia entre as pessoas, fazer com que entendam essa linguagem artística e, melhor ainda, motivá-las a ingressar e se integrar em seu quadro social, participar das exposições, palestras, workshops, saídas fotográficas e diversas outras atividades por eles  desenvolvidas.

© Marilise Cesa

O que os fotógrafos, profissionais e amadores, procuram no Clube do Fotógrafo de Caxias do Sul?

O CFCX nasceu de um movimento organizado por um grupo de 13 senhores, mais amadores do que profissionais, muitos funcionários do Banco do Brasil, cujo objetivo era criar um clube onde fossem capazes de aprimorar as técnicas e a linguagem fotográfica, bem como promover a fotografia em Caxias do Sul. Assim, em 1980, na associação atlética do BB, nascia o nosso Clube, que mantém ativo em seu quadro dois desses sócios fundadores. Esse espírito de amizade que aproximou os pioneiros continua super vivo em nosso Clube. Todas as terças-feiras nos encontramos para respirar fotografia, seja ouvindo palestras, analisando portfólios, participando de oficinas como também nos desafiando através de concursos internos, um impresso e outro virtual, cuja classificação em votação interna formará o ranking anual. O campeão do ranking, no final do ano, recebe seu troféu em uma animada festa de premiação e encerramento de ano. Além das atividades internas, o Clube também promove saídas fotográficas externas, que ocorrem uma vez a cada mês, no mínimo. Também costumam ocorrer expedições mais longas, alcançando outros municípios e, até mesmo, outros países, como foi o caso do Uruguai, onde já fomos duas vezes.

© Marilise Cesa

Hoje o CFCX conta com aproximadamente 90 sócios ativos, mas mantém relação carinhosa com a maioria das pessoas que já passaram pelo seu quadro social e encontram-se afastadas dos encontros por motivos diversos. Quem ingressa em nosso quadro, busca aprender e se qualificar na arte fotográfica, mas acaba surpreendido por nossas atividades. O Clube incentiva seus associados a participarem dos concursos nacionais e internacionais, auxiliando na curadoria e promovendo oficinas direcionadas à captura e tratamento das imagens. Também são subsidiadas exposições coletivas, no mínimo uma por ano, a fim de apresentar a produção de seus associados à sociedade caxiense. Um encontro por mês, pelo menos, é destinado a alguma aula técnica, para a qual se traz palestrantes de renomado conhecimento fotográfico para qualificação permanente de nosso pessoal.

© Marilise Cesa

O que mais me impressiona é a diversidade dos sócios ativos, pois nosso quadro vai de 18 a 92 anos, de balconistas, aposentados, desempregados a funcionários públicos, médicos, empresários, todos convivendo em plena harmonia, igualando linguagens, aprendizados e disposição em compartilhar conhecimentos. A gente costuma dizer que temos uma adorável e divertida família no CFCX. O Clube participa muito das atividades no município, desempenhando também um grande papel social na comunidade, tanto que, em 1988, teve seu reconhecimento como Entidade de Utilidade Pública pelo poder público municipal.  E se o assunto for festa, daí então ninguém nos supera, é casa cheia e animada o tempo todo, dos 18 aos 92 anos, pois nosso Grão-mestre Walter Brugger não deixa por menos. Então, somos feitos assim, uma mescla de olhares e temperamentos plurais que se unem fraternalmente em benefício do aprendizado e qualificação fotográfica, que se desafiam, se doam, se divertem muito e vêm fortalecendo, cada dia mais, nesses 37 anos de existência, o Clube do Fotógrafo de Caxias do Sul.

© Marilise Cesa

Indique três fotógrafos que constituem referências de inspiração do seu modo de ver a fotografia.

Dentre tantos que me inspiram, hoje vou destacar estes:

Henri Cartier Bresson

Robert Doisneau

Sebastião Salgado

© Marilise Cesa

Se pudesse escolher uma fotografia ou uma série mais importante para você, qual seria ela e por que?

Sou apaixonada pelas fotografias de muita gente, mas vou eleger o trabalho de Sebastião Salgado, no álbum “Africa”, porque o volume inteiro é pura arte e sensibilidade. Como bem dito por Mia Couto, que prefaciou a obra, a beleza das fotografias é tanta que qualquer coisa que se queira dizer sobre elas parece pleonástico. De fato, cada página que se abre é um encantamento, não só pelas imagens registrarem a vida selvagem, os animais, os cenários maravilhosos contrapostos ao solo árido, mas, especialmente, porque elas resgatam um valor e uma dignidade contida no próprio sofrimento.

© Marilise Cesa

As fotografias são carregadas de paradoxos, quando a fome se associa a olhos brilhantes, quando armas de fogo e as guerrilhas são desafiadas por brincadeiras de crianças, quando o estudo se faz com assentos improvisados ao chão, quando vítimas mutiladas pelas minas continuam seu trabalho com um sorriso no rosto, quando o gado é mais importante do que as gentes, quando a poeira encobre de branco uma pele negra e viçosa, quando uma mãe linda e vaidosa não evita a maternidade ao carregar seus filhos pelas mãos, costas e outro no ventre, enfim… sou, mesmo, apaixonada por esse trabalho. E tive o privilégio de vê-lo exposto em Porto Alegre, numa palestra do próprio Sebastião Salgado, com impressões gigantes mostradas com um primor de qualidade técnica, contrastes, tratamentos e muita expressividade. Visitei a África em 2013 e é mesmo verdade o que dizem sobre a gente se sentir meio que em casa naquele continente, possivelmente porque ele nos foi arrancado por um acidente geológico. E não bastasse a África ter voltado grudada no meu coração, a obra de Sebastião Salgado me faz querer retornar lá pra ver e fotografar tudo o mais que, em meu curto tempo de permanência,  não vi e não fotografei.

© Marilise Cesa

Qual foi a melhor foto que você não fez?

Todas aquelas cenas inusitadas da vida cotidiana que flagro durante minhas caminhadas pelas ruas das cidades brasileiras e que, por absoluta falta de segurança, não estou com o equipamento junto para poder congelar o momento. Já perdi gente pulando em poças d’água estilo Cartier-Bresson, gente dançando na chuva com sua sombrinha, gente cantando, namorando, brigando, criança dando lição de civilidade a seus pais, travessias pitorescas em faixas de segurança,  enfim… É lamentável não podermos passear livremente pelas ruas com os nossos equipamentos fotográficos. O celular até quebra o galho, mas não é rápido o suficiente e, na maioria das vezes, necessitamos de uma tele para encurtar a distância que o flagrante exige.

© Marilise Cesa

Qual fotografia você jamais faria? Por que?

Se tivesse que dar uma resposta para esta pergunta há 5 anos atrás, eu diria não ser capaz de registrar cenas envolvendo tortura e morte de pessoas ou animais. Sempre me chocaram algumas fotografias vencedoras do Prêmio Pulitzer, que é a consagração para os fotojornalistas. Para citar apenas um exemplo, por ter sido bastante polêmico, possivelmente eu não teria clicado, em 1993, aquela criança sudanesa desnutrida, caída ao chão, com um abutre ao fundo que parecia esperar por sua morte. Tanto se discutiu no mundo a ética daquela imagem que o próprio autor, o fotógrafo sul-africano Kevin Carter, vencedor do Pulitzer 1994, suicidou-se no mesmo ano, desabafando em nota que estava cansado de suas memórias de fome, morte e carrascos assassinos. Contudo, depois que passei a entender melhor o ambiente da fotografia, penso que ela também pode desempenhar um papel jornalístico de denúncia social e, por isso mesmo, é importante que existam profissionais capturando e exibindo essas imagens ao mundo.

© Marilise Cesa

Atualmente, procuro ter um olhar mais livre de críticas às imagens chocantes que vejo, optando por fazer uma leitura ambientada nas realidades específicas onde foram capturadas, concordando ou não com elas, mas sempre valorizando seu papel informativo. Se tivesse que produzir alguma foto, por exigência profissional, em cenários repudiados pelas minhas crenças e condutas, acredito que ainda assim faria. Um exemplo dessa minha postura a própria vida já me deu, quando, embora relutasse, não consegui evitar de acompanhar meu marido a uma tourada em Madri.  Vi tanta coisa que já sabia não querer ver, tanta tristeza e horror, logo eu, tão apaixonada por animais… Estranhamente, me escondi atrás da câmera e, no disparador contínuo, chocada, cliquei como nunca. Acredito que nem devo ter tirado o equipamento da frente de meus olhos, pois voltei pra casa com um cartão lotado daquela barbárie. São fotos até interessantes que estão salvas lá em algum canto de meu HD, quase nunca  as visito, nunca foram tratadas e, possivelmente, nunca serão exibidas também. Não, com certeza, não serão exibidas por mim, mas que, inexplicavelmente, fui capaz de produzir, fui.

© Marilise Cesa

Indique três bons livros sobre fotografia.

Obviamente sem desprezar Scott Kelby, Michel Freeman, Clício Barroso, Sebastião Salgado, Henri Cartier-Bresson, Steve McCurry, Ansel Adams e tantas outras sumidades que nos inspiram com suas lições e imagens, hoje vou fugir dos clássicos, dos álbuns, dos manuais, pois acredito que a maioria dos praticantes tenham em suas bibliotecas os melhores volumes, dos melhores e mais conceituados autores que se relacionam com suas demandas. Assim, a opção será apresentar algumas obras que, de forma muito pessoal,  me trouxeram um rico aprendizado e possivelmente não estejam entre os top de venda:

* “Tudo sobre Fotografia”, de Juliet Hacking e David Campany (Sextante). Uma enciclopédia inteira em um só volume, linda, muito bem formatada e impressa de forma primorosa. Traz, realmente, tudo sobre a história da fotografia, com ilustrações fantásticas acompanhadas de uma análise detalhista e minuciosa que as associam ao perfil de seus fotógrafos e à cada momento sócio-cultural da história;

* “Direito Autoral para fotógrafos”, de Marcelo Pretto (iPhoto Editora). Uma indicação prática, muito útil para esclarecer dúvidas que estão presentes em nosso cotidiano fotográfico e sempre nos inquietam. O autor é advogado e fotógrafo, habilidades que lhe autorizam a nortear os leitores, de forma simples, no mundo do Direito. Considero o livro muito prático, específico ao nosso interesse, bom pra tê-lo sobre a mesa de edição e consultá-lo sempre que for preciso;

* “Semiótica Visual: os percursos do olhar”, de Antônio Vicente Pietroforte (Editora Contexto), porque é o que estou lendo no momento. O livro traz uma linguagem básica e acessível a esse tema que, para mim, se apresenta tão complexo. É adequado ao início dos estudos sobre semiótica e muito interessante porque analisa imagens vinculadas à cultura brasileira. Não é específico sobre fotografia, embora tenha um capítulo a ela dedicado, mas aplica-se fundamentalmente à educação de nosso olhar.

 

Marilise Cesa é associada do Clube do Fotógrafo de Caxias do Sul.

 

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