Trip, Volume 1, Ano 2018

Paisagens patagônicas

22 de fevereiro de 2018

por Luciano e Adriana Mendes

Luciano e Adriana Mendes, casal de engenheiros apaixonados pela fotografia e pela aventura. Participam do Foto Clube do Vale do Sapucaí, em Santa Rita do Sapucaí. No verão de 2018 realizaram uma viagem de moto pela Patagônia. Com a câmera na mão, eles contaram um pouco sobre a fotografia dessa aventura sensacional.

Desde quando vocês fotografam?

Luciano – Desde criança eu tive acesso a câmeras fotográficas, embora todas sempre muito simples. A primeira câmera realmente minha foi adquirida em 1996, em função da minha primeira viagem ao exterior. Era uma point&shoot da Kodak com foco fixo, mas com avanço e rebobinamento automáticos e flash embutido, o que eu considerava uma modernidade. Em 1998 adquiri a minha primeira câmera digital, uma Casio QV-10A com resolução de 320×240 pixels. Era o prelúdio de uma nova era, mas a tecnologia ainda não estava no ponto certo e continuei usando a Kodak por mais alguns anos. Em 2004 adquiri a minha segunda câmera digital, que podia efetivamente produzir imagens com alguma qualidade. Era uma Sony DSC-P10 de 5 Megapixels. Pouco depois, esta câmera foi substituída por uma Sony DSC-W7, que foi a câmera que me acompanhou por muitos anos. Em 2010 adquiri a minha última point&shoot, que foi uma Sony DSC-HX5V. Até este ponto, eu utiliza a câmera como um instrumento de extensão de memória, para registrar locais que eu havia visitado, principalmente em viagens de lazer. Era comum a câmera passar meses na gaveta. Eu não sabia absolutamente nada sobre os fundamentos básicos de fotografia, como exposição e composição.

Adriana – Comecei a fotografar já adulta, em viagens que eu fazia junto com meu esposo. Ele também adora fotografia e teve um papel importante no meu aprendizado. No início, usávamos uma câmera digital pequena no modo automático e minhas preocupações eram com o enquadramento e com a sobre-exposição das imagens. Em 2014, eu estava morando na Alemanha e foi lá que meu gosto pela fotografia veio à tona. A partir deste ano comecei a investir mais nos conceitos de fotografia e a aprender como usar as câmeras digitais e analógicas. Desde então, procuro aprender cada vez mais sobre fotografia.

Como surgiu o interesse pela fotografia?

Luciano – Em 2013 eu tive a oportunidade de ir morar na Alemanha. No fim daquele ano, fui viajar para uma cidade que sempre me intrigou: Roma. Algum tempo antes desta viagem, achei que seria interessante dar, finalmente, um passo à frente e adquirir uma câmera “profissional”. A escolhida foi uma Nikon D5100, que já vinha com duas lentes: uma 18-55mm e outra 55-200mm. Resolvi treinar o uso desta câmera antes da viagem, para ter certeza de que eu saberia fazer o que tinha que ser feito quando o momento chegasse. Para a minha surpresa, as fotos que a D5100 produzia no modo automático, não eram muito diferentes daquelas que eu obtinha com a HX5V. Para falar a verdade, algumas vezes a HX5V conseguia superar a D5100. Ciente de que o problema era eu, e não a câmera, resolvi ler com detalhes o manual. Logo descobri tecnicamente para o que servia cada função, mas não sabia porque aquela função era importante, nem qual era o impacto dela na imagem produzida. Então, comprei o meu primeiro livro que ensinava fotografia: Master your DSLR Camera – A Better Way to Learn Digital Photography. Foi aí que aprendi as causas e efeitos do aumento ou redução do ISO, abertura, tempo de exposição e balanço de branco na imagem gerada. Mas esse livro não trazia as razões físicas para esses resultados. Perguntas como “Por quê o ruído aumenta quando o ISO é elevado?”, “Qual é a razão da profundidade de foco reduzir com o aumento da abertura?” e “Qual é a quantidade de luz que a câmera considerada adequada para definir o tempo de exposição quando eu fixo o ISO e a abertura?”. Fui atrás das respostas para estas perguntas e me deparei com um novo mundo. Passei a me interessar sobre detectores de luz e suas faixas dinâmicas, sistemas de foco, física óptica e processamento de imagens. Aí eu esbarrei com Ansel Adam e seus livros “The Camera” e “Examples” e tudo ficou muito mais intenso. Esse meu interesse acabou transparecendo no trabalho, já que eu carregava a D5100 para todo o canto e sempre tentava aplicar uma técnica nova, me aprimorando na regra “Sunny 16”, afinal, eu queria ser um fotômetro melhor do que a câmera. Acabei descobrindo que o hobby nacional na Alemanha é fotografia. Aproximadamente 70% da população é entusiasta da fotografia e um amigo era um ferrenho admirador desta arte. Ele e eu tínhamos debates diários sobre equipamentos, lentes, câmeras, técnicas de exposição e composição. Cada um saia para tirar fotos e, no dia seguinte discutíamos o que havia dado certo e o que havia dado errado. Chegamos à conclusão de que devíamos voltar às raízes e compramos câmeras analógicas. Foi assim que me vi envolvido num leilão de uma Nikon FE2 de 1984 no eBay, que vinha com uma 50mm F1.8. Em pouco tempo, estávamos num banheiro escuro, sem nenhuma luz, discutindo qual era a melhor forma de colocar o filme no recipiente de revelação e se era melhor usar o revelador a 21 graus ou 23 graus. Quando me dei conta, eu já tinha um câmera DSLR full-frame, uma DSLR APSC, uma mirrorless, diversas lentes, a FE2, uma Yashica Electro 35 (afinal, eu precisava de um Range Finder) e uma Carl Zeiss de 1954 totalmente funcional. Além de dezenas de rolos de filmes que eu mesmo havia revelado e dezenas de milhares de fotos em formato bruto (RAW) processadas no Lightroom. Em 2015, a minha vida girava em torno da fotografia.

Adriana – O interesse pela fotografia surgiu em 2014, quando ganhei uma câmera mirrorless da Samsung, versátil, prática e leve, além de ser divertida para fotografar. Ela oferece um ótimo resultado e foi a partir daí que eu comecei a usar o formato RAW e a aprender mais sobre o processamento das imagens. Outros fatores contribuíram para aumentar o meu interesse pela fotografia nesta época. Alguns desses foram os lugares lindos na Alemanha, a grande parcela da população alemã que sabe e gosta de fotografia e o grande entusiasmo do meu esposo com a fotografia. Este gosto aumentou cada vez mais. Há dois anos e meio atrás, desde que voltamos da Alemanha, pensei que eu fosse fotografar bem menos. Mas isso não aconteceu. Pelo contrário. Em 2015, me associei ao Foto Clube Vale do Sapucaí, o que tem me motivado ainda mais a seguir o caminho de aprendizado e dedicação à fotografia. Em janeiro de 2017, viajamos de moto para o Atacama. As belas fotos que tiramos pelo caminho culminou em um foto-livro bem bacana. Neste ano, em janeiro de 2018, fizemos outra viagem de moto para a Patagônia, que é também um lugar fantástico para quem aprecia a natureza e tem paixão pela fotografia.

Quais lentes vocês mais gostam de usar e por que?

Adriana – Atualmente, tenho me divertido com a lente de 200mm. Às vezes olho para longe e vejo cenas diferentes e que me cativam. A lente de 35mm é bastante útil para mim, porque posso usá-la em qualquer situação. A de 16 mm, nem se fala! Também é incrível, ainda mais sendo usada numa mirroless. Adoro também a de 50 mm para retratos. Enfim, gosto um pouquinho de cada uma. Ainda estou aprendendo sobre elas e desvendando os seus mistérios. Ah, é importante lembrar que uso todas essas lentes em câmeras APSC, ou seja, deve-se lembrar que o fator de corte aumenta a distância focal efetiva em 50%!

Luciano – É muito difícil dizer qual a lente que gosto mais. Confesso que tenho um caso de amor com a minha Samyang 14mm F2.8. Ver o mundo através do visor da câmera quando esta lente está instalada nela é algo único. Mas produzir uma boa foto com esta lente é um baita desafio. Tive poucos sucessos com ela, infelizmente. Também gosto muito da Samyang 35mm F1.4 e a razão principal é a cremosidade do bokeh que essa lente produz. Inigualável dentre as lentes que possuo. A Tamron 90mm F2.8 também está no hall de lentes preferidas, uma vez que gosto muito de macro-fotografia. Mas a lente que acabo usando com maior frequência é a Tamron 24-70mm F2.8 por causa da sua versatilidade.

Quais foram as dificuldades ou principais desafios na realização das fotografais dessa viagem?

Adriana – Foram 32 dias incríveis viajando pela Patagônia de moto. Descemos pela Rota 3 até o Ushuaia na Argentina, fomos para o Chile em Punta Arenas e Porto Natalles, subimos pela Rota 40 novamente pela Argentina até Bariloche e voltamos para casa. Cada dia em um lugar com diversas paisagens magníficas. Algumas das dificuldades enfrentadas eram o clima e o tempo que eu tinha para fotografar. O vento por lá é forte e isso dificultava um pouco ao segurar a câmera. Eu levei uma câmera Olympus TG-4 comigo pendurada no pescoço. Essa câmera é robusta e a prova d’água e serviu perfeitamente para documentar a viagem. Às vezes, eu usava a DSLR que ficava com o Luciano. Mas ele tinha ciúmes dela e não deixava eu usá-la muito. Queria ter tido mais oportunidade de ter usado ela. Fotografar com a moto em movimento é sempre um desafio. Quando a velocidade da moto estava um pouco alta, ora eu tinha que lutar contra o vento, ora eu tinha que brigar com a velocidade de exposição. Então, eu pegava a câmera rápido e tirava a foto, prestando atenção para ver se a exposição estava legal e o tempo de abertura do obturador estava compatível com a velocidade da moto. Eram cenas deslumbrantes de se ver. Claro, paramos muitas vezes, mas nem sempre era possível, pois tínhamos que deslocar muitos e muitos intermináveis quilômetros em um dia. A Patagônia é grande e tudo é sempre muito longe. Então, se eu desse bobeira para ajustar a câmera, pronto! A cena já tinha passado e quando o Luciano perguntava se eu tinha conseguido fotografar, cabisbaixa eu respondia que não tinha dado tempo. Outra questão também que envolve o tempo, é que seria bem melhor se ficássemos mais tempo nos lugares para poder observar melhor e esperar a hora certa para fotografar. Mas, tínhamos que continuar a viagem e não podíamos ficar perdidos nas montanhas geladas para sempre.

Luciano – As principais dificuldades foram a falta de tempo e a falta do equipamento certo. Tempo foi um problema porque alguns lugares demandam uma observância profunda para definir qual é o melhor horário para a foto, além de ser necessário esperar as condições climáticas adequadas. Quase nunca tínhamos o luxo de ficar o tempo necessário num local para poder explorar o melhor momento fotográfico. O “momento decisivo” sempre nos escapava. A questão do equipamento esbarra no fato de termos realizado essa viagem de moto. É claro que a capacidade de carga fica restrita e, numa viagem de 32 dias, tínhamos itens mais vitais para levar do que uma coleção de lentes. Além disso, tive um acidente enquanto fotografava uma feira de livros usados no Parque El Retiro em Madrid e a minha D610 acabou caindo no chão. O tombo foi leve, mas o suficiente para desalinhar o espelho, o que me forçou a levar a D5100 para a viagem.

O que mais chamou a atenção de você na viagem?

Luciano – Sem sombra de dúvidas, as paisagens surreais pelas quais somos cercados na Patagônia. São cenas que nossa mente não está apta a entender de forma repentina. Depois de subir um morro de pedras e vislumbrar o cenário à sua frente na Base de Las Torres no Parque Torres del Paine, a gente precisa de um 5 minutos para então dizer “Espera aí! Isso é uma lagoa!”. A gente precisa de um tempo para que o cérebro crie novas conexões a partir do estímulo visual à nossa frente, para que as coisas façam sentido. As formas, cores, textura, cheiro, temperatura causam reações e sentimentos aos quais não estamos acostumados. É uma experiência transformadora, no sentido stricto da palavra, e não metafórico.

Adriana – A natureza intensa e mágica da Patagônia nos traz muitas revelações. A beleza da vegetação, os animais silvestres, os cheiros de cada lugar, as pessoas que vivem por lá, tudo isso nos deixavam renovados a cada dia. Mesmo com os desafios que enfrentamos, era motivante saber que ali na frente outra cena espetacular nos esperava, logo depois de uma curva ou de uma encosta pedregosa. As estradas cheias de flores nos encantavam. Os guanacos também instigavam nossa curiosidade. Sem falar da imensa quantidade de cordeiros espalhados pelo caminho, além dos pinguins e lobos marinhos. Atravessar pelo Estreito de Magalhães, conhecer o Canal Beagle que liga o Atlântico do Pacífico, ver de perto as grandes geleiras e montanhas me fez sentir pequena. Por causa do clima, o céu é sempre espetacular, com nuvens das mais diferentes formas e lindos arco íris perfeitos para uma fotografia. Tudo isso me chamou a atenção, principalmente a cor dos lagos, incomum aos meus olhos.

Tiveram surpresas?

Adriana – Nós tivemos muitas surpresas durante a viagem, a Patagônia é impressionante. Duas delas estão relacionadas aos cordeiros. Existem muitos pela Patagônia e muito deles ficam próximos das estradas. Eu estava na garupa da moto apreciando as paisagens e foi quando eu avistei vários cordeiros dos dois lados da estrada. Olhei de um lado, eles estavam lá se alimentando e foi aí que virei o rosto para o outro lado e vi dois cordeiros dando cabeçada um no outro. Ver isso foi muito bom! Outra surpresa, também na moto, foi ver a metade de um arco íris que estava concêntrico à montanha e no vale estava cheio de cordeiros. Chovia pouco e o sol iluminava. Essa cena sem sombra de dúvida foi uma linda surpresa.

Luciano – A primeira surpresa que tivemos foi quando nos deparamos com a vida selvagem da Patagônia e sua incrível diversidade. Ver Guanacos saltitando ao longo dos milhares de quilômetros de estradas é algo bonito, interessante e muito preocupante. Eles invadem a pista, aparentemente sem motivo, e causam muitos acidentes. Os pinguins também são fascinantes, sem falar que são extremamente engraçados. É incrível ver um animal tão desengonçado em terra firme, se transformar num dos seres mais ágeis e graciosos que já tive a oportunidade de observar, logo que entram na água. Que contraste! E o que dizer dos lobos-marinhos, sua imponência preguiçosa e cheiro forte e marcante? Estar no meio de uma colônia e lobos-marinhos selvagens com uma câmera nas mãos é algo que coloca um sorriso no rosto de qualquer um. Mas não se empolgue e nem chegue muito perto! Eles correm atrás de você. Experiência própria…

A segunda grande surpresa foi descobrir que o espectro de luz é muito mais amplo do que a gente consegue imaginar. Uma geleira nos ensina que as tonalidades de azul são praticamente infinitas. As lagoas dos glaciares, cintilantes e quase fluorescentes, nos lembram que a tecnologia de monitores têm que evoluir muito. São cores, intensidades de luz e nuances que simplesmente não conseguimos capturar e reproduzir. Só estando no lugar para entender o esplendor daquelas cores.

Qual ou quais são os seus gêneros de fotografia preferidos: retrato, paisagem, vida silvestre, arquitetura urbana, fotografia de rua?

Adriana – Eu gosto um pouco de cada. Eles me trazem satisfações diferentes. Alguns são mais desafiadores, outros prazerosos e divertidos. Uns trazem alegria e até mesmo melancolia, principalmente quando é retrato. Enfim, ainda estou em busca disso, preciso me aperfeiçoar muito.

Luciano – Eu ainda não me defini como fotógrafo. Ainda navego entre os estilos, meio sem rumo. Sem dúvida alguma, gosto muito de fotografia de paisagem. Todas as viagens que faço e o desenvolvimento do meu interesse por motociclismo foram motivados pela fotografia de paisagem. Posso dizer o mesmo sobre arquitetura urbana que, na minha concepção, também é uma paisagem. Mas também gosto muito de macro-fotografia. De revelar os detalhes de insetos e plantas que nós simplesmente não conseguimos ver. E o meu maior desafio é a fotografia de rua. Confesso que tenho que me esforçar para fotografar pessoas nas ruas, pois é algo que considero meio invasivo. Mas estou trabalhando nisso e me empenhando cada vez mais nesta modalidade.

Quais foram as suas melhores fotos perdidas nessa viagem? Descreva para nós aquela imagem maravilhosa que vocês queriam mas não puderam fotografar.

Adriana – Foram muitas fotos perdidas, não era fácil fotografar no momento certo, mas posso citar que a melhor foto perdida foi a que descrevi no item g. sobre os cordeiros. A imagem era maravilhosa. Era de manhã e ainda chovia pouco. O sol começava a brilhar no céu. Era um vale com muitos cordeiros espalhados, tinha a cerca que separava o pasto da estrada e logo no início haviam flores, uma vegetação amarelada. No fundo uma montanha e concêntrico à ela formou-se um lindo arco íris. Infelizmente, não paramos para fotografar.

Luciano – Foram tantas fotos incríveis perdidas, que fica difícil selecionar uma. Mas acho que a foto mais bonita que mentalizei, mas não consegui tirar, pois estava em um ônibus em movimento, foi num vale de Puerto Natales. Estávamos saindo da cidade, rumo ao Parque Torres del Paine num ônibus de turismo. Chovia um pouco, e havia muitas nuvens pesadas rodeando as montanhas que cercam a cidade. Pegamos uma pequena estrada de terra e, de repente, parte das nuvens se abriram e um intenso arco-íris se formou no vale ao lado da estrada. Mas era um arco-íris completo, de 180 graus, emoldurando as montanhas com picos nevados ao fundo. Linda imagem. Perfeita para a D610 com a lente de 14mm. Uma pena…

Quais foram as fotos que vocês fizeram mas não deram certo?

Luciano – Essa eu vou pular.

Adriana – Uma das fotos que fiz e não deu certo foi de uma árvore. Ela estava perto de um lago e tombada para o lado, certamente por causa dos ventos forte de lá. Achei interessante por causa do ângulo que eu estava. Ao ver a foto no outro dia ela estava com uma mancha branca de umidade. Outra que não deu certo foi de animais na beira da estrada. Elas ficaram desfocadas, pois estávamos em movimento na moto.

Qual pergunta vocês procuram responder com suas fotografias?

Adriana – Ainda estou em busca desta questão. É mais fácil pensar que as pessoas/observadores podem questionar sobre as fotos e ver o que elas transmitem. Ou somente apreciá-las. No momento da foto, o fotógrafo olha para a cena inesperada e nem sempre analisa se aquela foto irá trazer algum sentido. A não ser que seja um projeto e que leve tempo para fazer as fotos, que tenha um grande motivo, uma ideologia talvez, mesmo assim, ele pode descobrir algum significado depois que a foto estiver pronta, após o processamento. Isso pode ser intuitivo. Ou simplesmente, o fotógrafo faz a foto e registra aquele momento. Cada pessoa tem uma opinião ao ver uma foto. Cada um se expressa de forma diferente, tem sentimentos diferentes, às vezes a foto traz boas ou más lembranças. Além, de mostrar a realidade dos fatos. E isso, que é legal, talvez levantar estas questões através da fotografia é uma forma de abrir os olhos para um entendimento maior e mais profundo sobre a vida e o mundo.

Luciano – Eu acho que não procuro oferecer respostas com a fotografia. O que eu tento, em primeiro lugar, é oferecer algo bonito ou interessante, que valha a pena olhar por 8 segundos e que faça a pessoa pensar “Que legal!”. No fundo acho que só consigo expressar algo artístico através da fotografia. É uma forma interessante de utilizar física, química e/ou eletrônica para gerar arte, sem precisar ter talento manual.

O que é a fotografia para vocês?

Adriana – Fotografia é registrar os bons e maus momentos, documentar os acontecimentos cotidianos da vida e do mundo. Fotografia é olhar para uma cena e perceber que ela pode trazer emoção.

A fotografia patagônica de Luciano:
 
Ushuaia é a cidade mais ao sul do planeta. Mais para o sul, só existe um povoado chamado Puerto Willians, onde só se chega de barco. Por terra, não tem mais para onde ir. Ushuaia é o fim da estrada, o fim do mundo. E uma terra gelada, de ventos fortes, mas que no verão se derrete em belas paisagens, lagos cristalinos e muitas cores. As pessoas, agitadas com o bom tempo, aproveitam cada segundo das 22 horas de claridade, pois sabem que é só uma questão de tempo até que o duro, gélido e inevitável inverno retorne.
As bases das Torres del Paine foram um dos pontos mais altos da viagem. Para chegar lá, precisamos enfrentar uma caminhada de aproximadamente 5 horas, passando por encostas, vales, florestas de lengas para, finalmente, subir um trilha de 2 km bem íngrime. Mas ao chegar no topo desta trilha, a cena que se desvenda à nossa frente é indescritível. É o tipo de lugar que nós simplesmente não estamos aptos a entender ao ver pela primeira vez. Precisamos de vários minutos para compreender que estamos na frente de um lago aos pés de uma das formações rochosas mais famosas da Patagônia. Esse local é de uma beleza insana.
Andar sobre uma geleira é como estar num outro mundo. Nada é aquilo que você espera. A textura áspera do gelo, a intensidade do branco, os infinitos tons de azul e o silêncio, quebrado apenas pelo farfalhar de seus passos e os estrondos que vêm das entranhas do gelo, formam um ambiente completamente novo para quem vive numa região tropical. Estar sobre uma geleira nos faz ficar ciente da nossa insignificância frente a imponência da natureza. Perito Moreno nos proporcionou essa experiência fantástica.
Este filhote de pinguim esperava os pais retornarem do mar em Punta Tombo, Argentina. Essa colônia possui centenas de milhares de pinguins e é simplesmente incrível como cada um encontra o seu filhote e seu ninho naquele mar de pássaros desengonçados. Os filhotes esperam pacientemente nas sombras dos arbustos, tranquilos e certos de que seus pais não falharão em cumprir suas funções.
O lago Pehoe, que significa Lago Escondido na língua indígena local, é um daqueles lugares que parecem ter sido pintados à mão. Incrustado nas montanhas do Parque Torres del Paine, esse lago de origem glacial possui águas com uma coloração única. Quase que um azul cintilante. Os Cornos del Paine emolduram o lago e, para completar, há uma pequena ilha no meio do lago, onde um hotel foi caprichosamente instalado. O que dizer de um lugar assim?
Estar numa praia no meio de uma colônia de lobos-marinhos é uma forma abrupta de deixarmos de lado nossa realidade cotidiana. As sensações são diferentes daquilo que observamos no dia-a-dia. O medo dessas imponentes criaturas é a primeira coisa que se destaca. Mas eles também são animais cativantes e a gente acaba se conectando a eles. O odor forte também é algo marcante, até mesmo nauseante. Os sons que eles emitem se sobrepõe a tudo. De repente, é como se eles dominassem os nossos sentidos. Só temos olhos para eles, nossos narizes só sentem o cheiro deles e não há mais nenhum som à nossa volta, a não ser o deles.
Levamos 6 horas para chegar neste local. Depois de visitado diversas lagoas azuis cintilantes, eu devia estar preparado para esta cena. Mas, novamente, eu não estava. Fiquei horas admirando essa cor e o contraste das águas com as montanhas geladas em volta. Não queria mais sair de lá.
Esta geleira, chamada de Geleira Spegazzini, é uma das várias que alimentam o Lago Argentino e é a mais alta do Parque Los Glaciares. Ver essa majestosa massa de gelo azul espalhada sobre as montanhas até onde a vista alcança é algo inesquecível. A violência, congelada nas formas retorcidas, é uma mostra clara do poder do gelo, capaz de pulverizar montanhas ao longo dos séculos. Tempo aqui é outra coisa que assume outra dimensão. Ficamos estonteados com essas formas e cores que parece que até o tempo está congelado.
Estar numa viagem de moto de mais de 14 mil quilômetros é estar exposto a tudo o que a natureza pode oferecer. Muitas e muitas vezes, nós somos surpreendidos com cenas extremamente agradáveis, onde flores e aromas nos cercam de forma muito aconchegante. Mas não se ilude. Esse é um ambiente selvagem, onde nós, humanos, estamos apenas de passagem. Quem manda aqui são os insetos. Abelhas, vespas, formigas e moscas estão por todos os lados. É muito bom estar abrigado dentro da roupa de moto nestas horas.
El Chalten. Esta cidade é um lugar especial. Um lugar que tenho certeza de que voltarei um dia, apesar de saber que o mundo é imenso e que há muito ainda para ser explorado. Essa vista, mostrando o Monte Fitz Roy em todo o seu esplendor, protegendo o vilarejo aos seus pés, é um dos motivos para eu querer retornar à Patagônia. Mas há muito mais escondido nestas montanhas, que ainda irei descobrir.
O olhar de Adriana sobre as bandas mais austrais do planeta
Leão Marinho Filhote: Na Patagônia Argentina, em alguns pontos da estrada pela rota 3 é possível parar e ver lobos marinhos na beira do mar. Tinham centenas deles. É incrível ficar perto destes animais tão diferentes. Muitos dormiam, outros se coçavam, uns brincavam e outros eram bem bravos. Eles se rastejavam pelas pedras bem preguiçosos e ficavam muito próximos um do outro. O odor que eles exalavam era bem forte, quase que impossível ficar por mais de uma hora observando. Na foto, o filhote curtia um pouco do sol.
Barco no Estreito de Magalhães: Este barco abandonado está localizado no Museu Nau Victoria em Punta Arenas, Chile e o mar ao fundo é o Estreito de Magalhães. Neste lugar existem outras réplicas de barcos que foram usados por grandes navegadores, como Fernão de Magalhães.
Ushuaia: No Canal Beagle em Ushuaia chovia bastante e ventava muito. Eu já estava sentada  bem confortável dentro do barco esperando a volta para a cidade. De repente, quando olho pela janela me deparo com uma cena imperdível. Peguei a câmera e quando vi deixei para trás todo o conforto para apreciar esta beleza.

Punta Tombo: A Pinguinera em Punta Tombo é um lugar onde tem uma enorme concentração de pinguins, localizado na Argentina. É admirável estar perto destes animais tão dóceis e engraçados. Sim, eles caminham ao nosso lado quando voltam para suas casas. São muitos e é muito curioso vê-los brincando e tropeçando ao sair do mar. Levam cada tombo.

 

 

Punta Norte: Punta Norte é uma parte da Península Valdes, na Patagônia Argentina, onde se encontra um grande número de animais como os lobos e elefantes marinhos, pinguins e até mesmo baleias. O desafio foi chegar ate lá de moto. São 140 km de ida e volta e a estrada neste lugar é toda de rípio, o que foi o pior rípio que enfrentamos nesta viagem. As pedras soltas e a quantidade de areia na estrada nos deram bastante trabalho.

 

Por do Sol: O dia na Patagônia é mais longo. No verão, anoitece por volta das 23:00 horas. E andar pela estrada neste horário é perigoso por causa dos animais soltos. Um dia a caminho da cidade Perito Moreno, enquanto eu estava na moto, avistei um por do sol. Registrar aquele momento foi imprescindível. Do lado direito era o Atlântico, onde as nuvens coloriam o céu nas cores rosa e azul. Do lado esquerdo, as cordilheiras, mesmo sem vê-las a natureza fazia a sua atração com um belo entardecer.

Parque Torres Del Paine: As nuvens são uns dos espetáculos da Patagônia. O clima instável deixa as paisagens de tirar o fôlego formando diferentes nuvens que são incomuns aos nossos olhos.

 

 

Lagoa Sucia: Esta lagoa exuberante está localizada em El Chalten, na Argentina, mais precisamente dentro do Parque Nacional Los Glaciares. Um paraíso para os aventureiros. Foram 6 horas de caminhada até ao Lago Los Três e andando um pouco mais, cerca de 15 minutos, a Lagoa Sucia deslumbra qualquer olhar.

 

Guanaco: Os caminhos para o Parque Torres del Paine, no Chile possuem vistas magníficas das montanhas. Além, dos belos relevos, a fauna e a flora da Patagônia Chilena e Argentina chamam bastante a atenção. Os animais muitas vezes atravessam as estradas e o guanaco é um deles. Esta cena eu presenciei enquanto eu estava na garupa da moto.
Los Cuernos: O vento estava fortíssimo e o desafio maior era segurar a câmera. Fiquei um bom tempo apreciando a beleza do Lago Pehoe. Quando as nuvens se deslocaram foi possível ver uma parte das Cordilheiras Andinas, o Cerro Paine Grande, localizado dentro do Parque Torres del Paine.

Luciano Leonel Mendes é fotógrafo, engenheiro e professor universitário.

Adriana Flauzino Mendes é fotógrafa e engenheira.

 

Recebido em 02/02/2018
Publicado em 22/02/2018

Como citar este artigo (ABNT):

  • MENDES, Luciano Leonel; MENDES, Adriana Flauzino. Paisagens patagônicas. Err01: Revista de Fotografia, Pouso Alegre,  v. 1, jan-jun, 2018. Disponível em: <http://www.err01.com.br/index.php/2018/02/22/paisagens-patagonicas> ISSN: 2595-1378.
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