Entrevista, Volume 1, Ano 2018

Como fotografa Cau Guebo

22 de fevereiro de 2018

A Err01 entrevistou Cau Guebo, repórter fotográfico de Porto Alegre que trabalha com a fotografia documental como instrumento político. Conversamos sobre diferentes conceitos de fotografia e sobre o caráter político da imagem.

Como surgiu o interesse pela fotografia?

Eu costumo ler a biografia dos fotógrafos que admiro e com certa frequência me frustrava ao saber que eles começaram a fotografar com 3 anos de idade, ganharam a primeira Leica ao completar 5 anos ou ainda tiveram alguém da família que já era um fotógrafo estabelecido e reconhecido. Eu não tive nada disso. Lá em casa a câmera era tirada do armário em datas festivas como aniversário ou natal, tampouco tínhamos o costume de revelar as fotos e emoldura-las. Ou seja, em casa não havia uma cultura visual de onde poderia usar como inspiração.  Apesar disso, corre no sangue da família uma veia artística que eventualmente faz com que nos dediquemos com maior profundidade à música, escultura, pintura. Assim, meu interesse pela fotografia se deu relativamente tarde, ao redor dos 25 anos, enquanto eu estava na faculdade estudando psicologia. Vejo como um processo natural de evolução a partir do meu interesse pela literatura e cinema. À época eu queria ser contista e roteirista.

O que é fotografia para você?

A fotografia em si e por si só é apenas a impressão da luz num suporte, uma mera curiosidade técnica. Assim como a música em si e por si só são vibrações do ar a partir de algum instrumento. A literatura em si e por si só são letras colocadas uma ao lado da outra. Mesmo a pintura em si e por si só é tinta numa tela. Todas essas técnicas são apenas técnicas que podem ser aprendidas com relativa facilidade. O que faz com que nos emocionemos ao ouvir uma canção, chorar frente a um quadro, vibrar ao ler um romance, querer pendurar na parede de casa uma fotografia, é a intenção do autor que captamos, digerimos e o resultado que passa a fazer parte de nós. Assim, o produto que resulta da manipulação da técnica deve necessariamente conter uma intenção, um significado, para que possa ser chamado de qualquer outra coisa além de “manipulação da técnica”. Ao contrário da técnica, que pode ser ensinada e aprendida com certa facilidade, o conteúdo/ significado contido na obra exige um árduo trabalho de autoconhecimento para se descobrir o que é que nos é importante, o que nos move e toca como seres humanos. Este diálogo com o foro íntimo de cada um não é fácil pois tendemos sempre à homeostase e ao prazer, na tentativa de evitar o conflito. Além disso, o contato consigo mesmo deve ser constante pois somos seres em eterna transição e o que foi importante para alguém ontem pode não o ser hoje. Assim, quando acionamos o mecanismo da câmera, devemos ser capazes de responder qual significado e qual intenção contém aquela imagem retangular e bidimensional que foi capturada. Se isso ocorrer, pode-se dizer que se tem uma fotografia.

Quais perguntas movem seu olhar fotográfico hoje?

Vivemos numa época de economia global, comunicação sem barreiras, informações disponíveis na palma da mão. Sem dúvida é um grande momento da história da humanidade para se estar vivo. Contudo, com todos os avanços, por que ainda há tantos com tão pouco e poucos com tanto? A pergunta não se restringe à acumulação de capital e venda da força de trabalho, é muito mais do que isso. A pergunta engloba o fato de um número absurdo de pessoas não terem acesso à comida, água limpa, moradia, remédio. Ou seja, o mínimo necessário para se poder usufruir da vida. E dentro das diferentes esferas sociais o amor, a amizade, a família, o trabalho são iguais? O que faz alguém largar tudo e viajar o atlântico em busca de melhor qualidade de vida? Como se dá o amor em tempos de redes sociais? Quem são as pessoas que estão nas ruas protestando contra medidas impositivas do governo? Como vivem hoje as pessoas que já estavam aqui muito antes de alguém vir e dizer que uma terra nova foi “descoberta”? Absorvo e tento entender o momento histórico que vivo e são essas as perguntas que me movem.

O que é uma boa foto para você?

Uma boa foto tem pouco a ver com uma linda luz, um enquadramento impecável, capturar o “momento decisivo” do Cartier-Bresson ou todo o resto que tentam nos vender em cursos, workshops e tutoriais da internet. Uma boa foto se obtém quando há coerência entre o que pensa e sente o fotógrafo, aquilo que está à sua frente e o resultado do clique. Demorei um tempo até entender que não é necessário ir para um país que esteja passando por um conflito armado para conseguir uma “boa foto”. Acredito que, como cidadão brasileiro, tenho o dever moral de primeiro olhar para os conflitos do meu próprio país, entende-los, registra-los e fazer com que as fotografias resultantes cheguem ao maior número de pessoas possível. A fotografia, contudo, é algo tão complexo e fascinante que o café da manhã em família durante as férias na praia pode ser uma foto maravilhosa, uma senhora esperando o ônibus no raiar do dia também. Para dar um exemplo concreto, W. Eugene Smith foi um fotógrafo que cobriu a Segunda Guerra Mundial, os efeitos do descarte de metais pesados num rio em Minamata, foi membro da agência Magnum, mas uma de suas fotos mais famosas é dos dois filhos brincando no quintal de casa.

 


The children of photographer W. Eugene Smith walk hand-in-hand in the woods behind his home, 1946.

 

Três fotógrafos que constituem referências de inspiração do seu modo de ver a fotografia.

1) Darcy Padilla é norte-americana, fotógrafa documental, fotojornalista e palestrante especializada em questões contemporâneas e projetos de longo prazo. Em seu livro “The Julie Project”, por mais de 21 anos, Darcy Padilla fotografou a complexa história de Julie Baird que incluía AIDS, uso de drogas, relações abusivas, pobreza, nascimentos, óbitos, perda e reunião. Ela seguiu Julie das ruas de San Francisco até o Alasca. O livro resultante é uma obra-prima da narrativa visual.

2) Denis Rouvre é um retratista, que vive e trabalha na França. Suas fotos foram publicadas em nível nacional e internacional. Sua última série, representando os sobreviventes do tsunami que atingiu o Japão em março de 2011, foi publicada em fevereiro de 2012, em um portfólio da The New York Times Magazine. A série de fotos do Rouvre foi amplamente exibida na França e no exterior. Ele também publicou vários livros e seus prêmios incluem um World Press Photo e um Sony World Photography Award.

3) Mauricio Lima é paulista e um fotógrafo documental independente. Ao longo de mais de uma década vem desenvolvendo um extenso projeto sobre a vida de pessoas afetadas por crises sociais e conflitos armados, com amplos trabalhos realizados em países como Afeganistão, Brasil, Iraque, Líbia, Portugal e Ucrânia. Atualmente, concentra-se em uma longa documentação sobre a migração dos refugiados do Oriente Médio rumo à Europa. Em 2016, Mauricio Lima tornou-se o primeiro fotógrafo brasileiro a receber o prestigioso Prêmio Pulitzer pelo seu ensaio sobre os refugiados em busca de asilo na Europa.

Se pudesse escolher uma fotografia ou uma série mais importante para você, qual seria ela e por que?

Lembro bem da noite de 2011 em Buenos Aires, no porão do Museo Simik, na primeira aula de fotografia documental onde o professor apresentou a série “Country Doctor” do W. Eugene Smith.  Até então eu não conhecia o conceito de “photo-essay”, conhecido em português como “projeto fotográfico” ou “foto-ensaio”. Trata-se de um conjunto ou série de fotografias que são feitas para criar emoções no espectador. Os ensaios fotográficos variam de trabalhos puramente fotográficos a fotografias com legendas ou pequenos comentários para ensaios de texto completo ilustrados com fotografias. Infelizmente há pouca bibliografia sobre o tema aqui no Brasil e o fotógrafo interessado em saber mais terá que se aventurar em publicações estrangeiras. A série em questão foi feita para a revista Life em 1948 e documenta a vida cotidiana do Dr. Ernest Guy Ceriani, um médico encarregado de fornecer atendimento médico 24 horas para mais de 2.000 pessoas na pequena cidade de Kremmling, na Rocky Mountains. A história era importante no momento para chamar a atenção para a escassez nacional de médicos do país e o impacto sobre isso em comunidades remotas. Hoje, o projeto fotográfico é amplamente considerado como representando um momento definitivo na história do fotojornalismo.

Qual foi a melhor foto que você não fez?

Eu tenho um álbum imaginário repleto das fotografias que não foram registradas em nenhum suporte físico. Eu não sou fotógrafo 24 horas por dia, tampouco carrego a minha câmera para todos os lugares que vou. Isso seria muito estressante não só pra mim como também para as pessoas com quem convivo. Quando não estou fotografando, apesar de ainda conseguir perceber a beleza das coisas, não penso em cores, luz, padrões, movimentos, mas às vezes algo interessante acontece na minha frente e eu penso “isso daria uma fotografia”. O importante é saber distinguir entre os papéis sociais que encarnamos durante as atividades diárias para que o papel de fotógrafo não seja fonte de frustração.

Qual fotografia você jamais faria? Por que?

Esta pergunta pode ser respondida a partir de dois ângulos diferentes; todos eles interessantes, a meu ver. Em primeiro lugar, a fotografia, ao contrário de outras formas de expressão humana, possui algo bastante peculiar que é a imperativa necessidade de “estar”. É por isso que com frequência se diz que o fotógrafo é uma “testemunha ocular” dos acontecimentos. O fotógrafo deve estar no lugar onde o fato acontece, seja lá a temática que o interessa. Para ser categórico: não há fotografia de algo se não houver no lugar câmera e quem a opere. Portanto, jamais farei foto de onde não estou.

O outro ângulo provém do código de ética dos jornalistas e que deveria regular a conduta de todo e qualquer fotógrafo, seja ele profissional, amador, atuante em qualquer uma das inúmeras áreas da fotografia: 1) respeitar o direito à intimidade, à privacidade, à honra e à imagem do cidadão; 2) O compromisso fundamental do fotógrafo é com a verdade no relato dos fatos, razão pela qual ele deve pautar seu trabalho pela precisa apuração e pela sua correta divulgação; 3) Não deve expor pessoas ameaçadas, exploradas ou sob risco de vida, sendo vedada a sua identificação, mesmo que parcial, pela voz, traços físicos, indicação de locais de trabalho ou residência, ou quaisquer outros sinais; 4) Usar a fotografia para incitar a violência, a intolerância, o arbítrio e o crime; 5) Não utilizar a fotografia de caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos, especialmente em cobertura de crimes e acidentes. Adaptei o texto do código para esta entrevista, sem alterar sua essência.

Três bons livros sobre fotografia.

1) Susan Sontag, Sobre fotografia: publicado originalmente no Brasil em 1983, reúne seis ensaios escritos na década de 70, em que a romancista e filósofa analisa a fotografia como fenômeno de civilização desde o aparecimento do daguerreótipo, no século XIX. O resultado é uma história social da visão, demonstrando seu lugar central na cultura contemporânea. Abrangentes e reflexivas, as análises dialogam com a filosofia, a sociologia, a estética e a arte pictórica. A erudição da autora não se traduz, porém, em hermetismo. Seu estilo é simples, direto, leve e sedutor, marca de uma das mais atuantes intelectuais da atualidade.

2) Philippe Dubois, O ato fotográfico: Neste livro o autor defende a ideia de que a foto não é apenas uma imagem, o produto de uma técnica e de uma ação, o resultado de um fazer e de um saber fazer, uma figura de papel que se olha em sua clausura de objeto finito, é antes um verdadeiro ato icônico, uma imagem em trabalho, algo que não é possível conceber fora de suas circunstâncias, do jogo que a anima. Ele diz que uma fotografia é ao mesmo tempo e consubstancialmente uma imagem-ato, compreendendo-se com isso que esse ato não se limita apenas ao gesto da produção propriamente dita da imagem (o gesto da “tomada”), mas que inclui também o ato de sua recepção (sua contemplação).

3) Roland Barthes, A câmara clara: Neste clássico francês, o autor estabelece uma correlação entre os processos ópticos de reprodução da imagem para mostrar que sem a intervenção pessoal, subjetiva, do observador  que pode ver nela muito mais do que o registro realista ou a mensagem codificada , a fotografia ficaria limitada ao registro documental. A câmara clara não é, portanto, um tratado sobre a fotografia enquanto arte nem uma história sobre o tema. Barthes se lança à tarefa de decifrar o objeto artístico, a  obra  entendida como mecanismo produtor de sentido.

Um filme bom de fotografia.

O documentário brasileiro “Abaixando a máquina: ética e dor no fotojornalismo carioca”, com direção de Guillermo Planel e Renato de Paula, foi lançado em 2007 e trás uma visão mais íntima e humanizada do ofício do fotojornalista, profissional responsável por captar, através da câmera fotográfica, muito mais que fatos, mas sentimentos, emoções e a realidade social.

O filme tem o formato unicamente de depoimentos e, apesar disso, não se torna monótono. Vários fotojornalistas desabafam, por pouco mais de uma hora, sobre a profissão, em seus mais diversos aspectos. Também têm espaço no filme personagens ligados à profissão, como editores e repórteres de texto de veículos de comunicação cariocas. Os depoimentos são intercalados com cenas gravadas de “making of” de coberturas, e, claro, fotografias feitas por alguns dos entrevistados.

 

Projeto It’s a Match!

 

 

 

 

Através do próprio aplicativo o projeto It´s a Match! visou captar mulheres que usam o Tinder  e fotografá-las no local onde costumam acessa-lo com mais frequência. Com os dados obtidos em uma entrevista semi-aberta, aliados às imagens capturadas, procurou compreender o que as mulheres buscam no Tinder e fazer um paralelo entre a forma como fazem uso do mesmo e a dinâmica das relações na pós-modernidade. Como desdobramento destes objetivos é possível uma reflexão sobre a família e o papel da mulher na formação (ou não) desta instituição, compreendida por nós como núcleo social que está em constante construção e carrega, concomitantemente, traços tradicionais e novas tensões transformadoras que evidenciam as dinâmicas sociais. Portanto, com a discussão se pretendeu desvelar as múltiplas formas de “ser família”, moldadas pelo contexto histórico-cultural e as leis sociais da época que são impostas sobre os vínculos entre as pessoas. Ao marcar contrapontos e confluências, pretendíamos gerar um campo de comunicação e reflexão sobre a família – terreno sobre o qual se coloca em tensão o indivíduo e suas aspirações – com o propósito de construir uma nova visão sobre nós mesmos. Projeto realizado com a psicóloga Luciane David.

 

 

Projeto Viv Ansanm

 

 

 

 

O projeto “Viv Ansanm”, que significa “Viver Juntos”, em crioulo haitiano, desvela cenas do cotidiano dos haitianos contratados por uma fábrica de massas na cidade de Gravataí. O desejo do fotógrafo é o de mostrar como esses imigrantes se adaptam à nova realidade, tão diversa daquela encontrada em seus país de origem. O que se observou a partir das visitas feitas a esses novos brasileiros é o fato de todos haverem deixado família no Haiti, seja esposa, marido, filhos, irmãos ou pais, e a maioria expressar o desejo de, quando se estabilizar, os trazerem também para o Brasil. O discurso majoritário, quando indagados sobre a decisão de deixar o Haiti, é o de que lá já não havia esperança de se ter uma vida digna, e o cotidiano não poderia oferecer mais do que a mera sobrevivência, suprindo somente as necessidades mais básicas. A língua vem se mostrando uma barreira para muitos e talvez seja o principal fator para estarem circunscritos ao convívio entre eles mesmos nas horas livres. Contudo, a cordialidade e a alegria, presente em todos eles, pode ser a ferramenta mais eficaz para transpor todos os percalços que vem enfrentando nesta etapa de adaptação. Espera-se que em pouco tempo “viver juntos” ultrapasse a barreira das paredes das casas onde vivem e possa englobar a sociedade na qual estão inseridos.

 

Projeto Protesto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A crise sublinhada pelos protestos que vemos com frequência nas ruas de todo o país é, em grande medida, uma crise dos grandes centros urbanos. A explosão do uso do automóvel; a explosão imobiliária com grandes condomínios e shopping centers; a expulsão dos moradores das áreas centrais e consequente expansão das periferias; o péssimo serviço de transporte público. Apontadas essas características é fácil concluir que definidas e orientadas pelos imperativos dos interesses privados, as montadoras de veículos, as empreiteiras da construção civil e as empresas de transporte coletivo dominam as cidades sem assumir nenhuma responsabilidade pública. Instaura-se, assim, uma forte crise de representatividade no sistema político brasileiro uma vez que os governos hoje estão capturados pelo capital financeiro e se veem obrigados a contemplar suas exigências.

 

Projeto Mbyá-Guarani

 

 

 

 

 

 

A situação em que se encontram as comunidades mbyá é diversa. Há grupos nas florestas do Paraguai e no grande Chaco que permanecem relativamente distantes da sociedade. Por outro lado, na Argentina, existem comunidades que, confinadas em reservas, encontram sua única fonte de alimento na merenda escolar distribuída nas escolas bilíngues. Os grupos familiares que circulam fora das aldeias e das terras indígenas, tanto na Argentina como no Brasil, vivem da venda de artesanatos, produzidos tendo como referência objetos de sua cultura material e imagens de sua cosmologia, e da prestação de serviços agrícolas nas propriedades privadas. Quando se estabilizam em algum local, podem conseguir também auxílios governamentais.

 

 

 

 

Cao Guebo é repórter fotográfico

Estudou Psicologia na UCS, fotografia de teatro e fotografia documental em Buenos Aires. Trabalhou na Argentina para companhias de teatro independente, tendo suas fotos sido publicadas nos mais variados meios. Seus projetos documentais focam temas sociais atuais, tais como a infância em meio à pobreza, doentes psiquiátricos, filhos de casais homossexuais e imigrantes internacionais.

cauguebo.blogspot.com.br

Facebook: facebook.com/cau.guebo

 

 

 

Recebido em 01/02/2018

Publicado em 22/02/2018

 

Como citar este artigo (ABNT):

GUEBO, Cau. Como fotografa Cau Guebo. Err01: Revista de Fotografia, Pouso Alegre,  v. 1, jan-jul.  2018.  Disponível em <http://www.err01.com.br/index.php/2018/02/22/como-fotografa-cau-guebo/>. Acesso em 22  abr. 2018. ISSN: 2595-1378.

 

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